Encontro Peregrinação - Março de 2005

Conclusões dos Jovens

 Tema: "Como viver hoje para amar sempre"

 

 

Os jovens presentes, neste Encontro-Peregrinação, tiveram um papel muito importante apresentando uma comunicação que foi recebida com aplausos pelos participantes e que resultou da reflexão do texto "O Jardim das Tartarugas"

 

0 jardim das tartarugas

                                                 (Bruno Ferrero)

Perspectivas de leitura

‑ Vocação

‑ Aparência

- Personalidade

Um rei dos tempos antigos tinha, à volta do seu palácio, um imenso jardim onde vivia e prosperava uma população de grandes tartarugas, que se movimentavam lentamente da sombra para o sol, e do sol para a sombra, olhando o mundo, um pouco desencantadas, com os seus olhinhos.

Um dia. ao jardim das tartarugas desce uma cotovia. Estava cansada por causa do calor e da longa viagem migratória. Pousou num ramo, à sombra de algumas folhas frescas. As tartarugas acharam‑na tão engraçada que começaram a saudá‑la:

‑ Que lindas penas! Que graciosas patas! Que bico delicado! Certamente que esta ave é das mais belas que existem!

A cotovia, confundida, para lhes agradecer cantou‑lhes a canção mais suave e brilhante do seu reportório. As lentas tartarugas ficaram extasiadas:

‑ É uma artista! Que talento! Que gorjeios e que sentido do espectáculo! Estupendo! Magnífico!

Choveram os aplausos. Uma tartaruga propôs:

‑ Peçamos‑lhe que fique a viver connosco!

As outras aceitaram com entusiasmo. E tanto insistiram, que a cotovia acabou por ficar. A cotovia começou uma vida muito diferente da que estava habituada.

Durante o dia, voava alto no céu e ao cair da tarde regressava para junto das suas pacatas companheiras. Fazia então um pequeno concerto, que enchia de sonhos maravilhosos as cabecinhas das tartarugas. Depois iam todas dormir: a cotovia num ramo e as tartarugas nas suas carapaças axadrezadas.

Deste modo, porem, a avezinha aparecia apenas de manhã e ao pôr do sol. Então as tartarugas reuniram‑se em conselho e a mais idosa disse:

‑ É uma pena que a cotovia esteja tão pouco tempo connosco! Devemos encontrar um modo de a ter connosco durante mais tempo!

As outras responderam:

‑ Dizes bem. Mas pertence à sua natureza voar alto, ir para longe. Será por isso impossível convencê‑la a ficar sempre na nossa companhia.

A tartaruga idosa disse:

-       Eu, pelo contrário, penso que conseguirei. Deixem‑me experimentar.

Ao pôr do sol, quando a ave desceu e saudou as amigas, a esperta tartaruga chamou-a à parte e disse-lhe:

- Minha cara cotovia, tu és para todas nós como uma filha. Gostamos tanto de ti que perguntámos ao Rei das Tartarugas como fazer-te feliz, e ele respondeu-nos que a felicidade máxima, nesta terra, consiste em viver com os pés bem assentes no chão. E se não nos deixasses nunca e desistisses de voar? Que achas?

A cotovia respondeu:

- Mas eu sou uma ave e não posso viver de outra forma. Todos os que têm asas devem voar para as alturas!

Disse a tartaruga:

- Falas bem e dizes a verdade. Mas as aves merecem a nossa compaixão. Voar é tão cansativo! Todos os animais, e também tu, não desejam outra coisa senão descansar e ter a barriga cheia. E depois, nunca pensaste que o falcão podia capturar-te ou um caçador ferir-te com as suas setas?

A cotovia, pensativa, acabou por responder:

- Acho que tens razão, minha amiga. Mas como posso vencer eu a minha natureza? Que devo fazer para ficar aqui sempre convosco?

A velha tartaruga, toda contente, sugeriu-lhe que arrancasse todos os dias uma pena das suas asas.

- Pouco a pouco, voar ser-te-á cada vez mais difícil, e no final deixarás sem te dares conta. E depois viverás connosco no jardim, poderás beber água fresca, comer a fruta e a salada que os homens nos dão todos os dias. Como viveremos felizes, sem ânsias, sem preocupações!

Desde aquele dia, a cotovia começou a arrancar uma pequena pena todas as manhãs. No final, encontrou-se com as asas completamente depenadas.

Agora não podia levantar voo, mas em compensação que paz e que boas refeições! A cotovia esgravatava e picava no chão como um frango. Engordava e divertia-se a brincar com as tartarugas. Tinham acabado, finalmente, as canseiras matutinas para voar em direcção ao sol em círculos concêntricos, trinando como as outras cotovias. Já não inventava canções novas. Até que um dia, no jardim, apareceu uma doninha faminta. Quando viu uma gorda cotovia que saltitava entre as tartarugas, não quis acreditar. Inicialmente escondeu-se na erva, com medo que fosse uma armadilha. Mas depois viu que era mesmo verdade: a cotovia movia-se apenas com pequenos saltos. A doninha, com a água acrescer na boca, resmungou:

- Isto sim, isto é mesmo uma comida real!

0 ágil predador saiu fora da erva. A cotovia deu-se conta e começou a gritar:

- Socorro, tartarugas!

Mas as suas amigas, aterrorizadas, esconderam-se cada uma na sua carapaça.

Então a ave tentou enfiar-se numa das couraças, mas lá dentro não havia lugar. A doninha tinha-a ferrado com as suas robustas mandíbulas e arrastava-a consigo. A cotovia ouviu que, de dentro das carapaças, saíam choros e lamentações. Gritou:

- Afinal não fazeis fazer outra coisa senão chorar? As tartarugas responderam em coro:

- Cara filha, a doninha é mais veloz que nós e tem os dentes aguçados! Não podemos ajudar-te!

Disse então a cotovia:

- Está certo. De cotovia transformei-me em tartaruga, renunciei à minha única salvação, as asas. Dei ouvidos aos estúpidos e aos medrosos, e agora mereço o meu fim!

Depois escondeu a cabeça sob as asas e resignou-se à sua sorte.

SUGESTÕES METODOLÓGICAS

1. Comentar as atitudes das tartarugas e da cotovia.

2. Qual a mensagem central desta história ?

3. Poderemos nós renunciar à nossa vocação?

4. A que me sinto chamado, para não perder as asas que Deus me deu?

5. As tartarugas de hoje podem ser os mass-media a tentar impor comportamentos que nos impedem de voar. Concordam? Exemplos do quotidiano dos jovens.

6. Quais são as maiores tentações que sentimos?

 

Não deixes de ser quem és, amado por Deus!

 

 

COMUNICAÇÃO DOS JOVENS AO ENCONTRO-PEREGRINAÇÃO

 

A reflexão, sob orientação do casal Leopoldina e Júlio Paiva, realizou-se na Casa Cónego Formigão em Fátima, com o grupo de jovens da paróquia de Santiago de Bougado – Trofa (Diocese do Porto), constituído por dez elementos entre os 14 e os 27 anos.

 

Reflectimos sobre o texto que nos foi proposto, que contava a história de um grupo de tartarugas tristonhas, que conseguiu convencer uma linda e encantadora cotovia a arrancar uma pena cada dia, das suas asas, por forma a não mais voar e assim ficar para sempre na companhia das tartarugas, onde havia alimento em abundância.

Mesmo tendo que renunciar à sua natureza, a Ave aceitou o desafio, não reflectindo muito sobre a atitude que iria tomar.

Quando já não era capaz de voar e estava bem gorda, a cotovia foi ameaçada violentamente por uma doninha. Pediu socorro às suas “amigas” tartarugas, mas não a puderam ajudar. Abandonaram-na!

A cotovia teve então um triste fim! Morreu!

 

Em grupo tentamos perceber melhor a mensagem do texto, reflectindo sobre as atitudes das tartarugas e da cotovia e sobre os ensinamentos que podemos tirar para a nossa vida, ao ouvir esta história.

Para nós, as tartarugas são personagens egoístas e possessivas, que apenas se preocuparam com elas mesmas e desejaram a alegria e a jovialidade da cotovia.

Ainda que não quisessem causar a morte à Ave, as tartarugas procuraram insistentemente encontrar a felicidade que não tinham, à custa da jovem cotovia. Pensaram somente no bem delas, ignorando por completo a Ave e o que lhe poderia suceder no futuro.

Por seu lado, a cotovia mostrou-se muito influenciável e com uma personalidade frágil. Rapidamente se descaracterizou, face às facilidades que aparentemente a vida lhe propunha.

Temos que nos ajustar ao meio em que nos inserimos, mas nem sempre é fácil saber onde está o nosso limite, de maneira a não deixarmos de ser nós mesmos.

A Ave foi perdendo lentamente as penas, pelo que não se apercebeu das mudanças graduais que foram sucedendo e que se mostraram desastrosas para ela.

O caminho mais fácil não é de todo o mais enriquecedor e seguro.

Subjugarmo-nos às facilidades não é o trajecto mais correcto, pois mais cedo ou mais tarde haverá sempre algo que nos mostre que errámos, tal como aconteceu com a cotovia.

Seguir uma vocação pode não ser uma opção simples e linear, uma vez que as pressões externas podem levar-nos a soluções superficiais. É fundamental que nos conheçamos bem e tenhamos grande apoio, sobretudo da família, que esperamos que esteja sempre do nosso lado.

 

 

 

 

Jovens da paróquia de Santiago de Bougado – Trofa

Orientação do casal Leopoldina e Júlio Paiva

 

 

Podemos renunciar à nossa vocação, o que muito provavelmente nos fará morrer por dentro, um pouco cada dia, na sequência de diversas frustrações e desilusões, que vamos acumulando ao longo do tempo. Chegamos a um ponto que pode ser tarde para recomeçar.

Deus tem um grande projecto para nós: sermos felizes e fazer felizes os outros, por isso nos deu asas, para que possamos voar no sentido desse grande sonho.

Que fazer então para pôr os nossos talentos a render?

Na sociedade ocidental actual, fruto da velocidade tão acelerada da vida, os jovens sofrem de uma profunda falta de tempo e vontade para “parar para pensar”. É muito importante escutar verdadeiramente o que nos vai cá dentro e então assimilar com mais sucesso toda a informação relevante, que todos os dias nos chega do exterior.

“Escutar o coração” faz-nos conhecer o que somos e como somos, porque todos somos diferentes e ninguém reage da mesma forma.

Somos chamados a absorver novos conhecimentos que nos permitam consolidar os grandes valores e questionar outros, por forma a progredirmos saudavelmente.

Podemos oscilar entre diversas posições, mas sempre voltando a uma posição estável, que permita que o nosso edifício se mantenha fiel ao seu projecto.

Pensamos que actualmente as tartarugas da nossa sociedade são representadas pelos mass media (em particular a TV que nos faz crer que não há regras e que tudo é normal e moralmente aceitável), a moda, a publicidade, os jogos, a alimentação, as diversões, as personalidades famosas, etc.

Assim, as grandes tentações dos jovens são o sucesso e a fama, que muitos tentam alcançar a todo o custo, porque tantas vezes na base não está o Amor, mas antes a rejeição. Todos temos a necessidade ser desejados e compreendidos no seio do nosso grupo, seja ele a família, os amigos ou o trabalho!

Torna-se simples desejar resultados fáceis, que requeiram pouco dispêndio de tempo!

É pois essencial tomar por modelos as grandes referências familiares da nossa vida, para não cedermos à ligeireza, que por vezes camufla os acontecimentos importantes da vida e dessa forma não nos aconteça o mesmo que à cotovia: a perda da sua essência!

Como dizia Victor Hugo: “A felicidade suprema na vida é a convicção de sermos amados.”