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FICPM- Jornadas FICPM 2007 Adão e Eva, Caim e Abel. As ciladas do casal e da família |
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Os textos sobre Adão e Eva, Abraão e Sara não são tomados por narrativas históricas mas antes por narrativas lendárias ou míticas. São relatados como uma espécie de reflexão em narrativas sobre o ser humano em relação com os outros, em relação de casal, em relação com Deus? Mas também sobre o ser humano confrontado com dificuldades causadas pela vida relacional de cada um. O alvo destas belas histórias é alimentar a nossa própria reflexão. Por uma leitura atenta do texto, nós somos reconduzidos à nossa própria experiência. Estes textos que datam de 25 séculos não são fáceis de ler mas permitem compreender a realidade humana pois falam reobservando a nossa própria realidade em diálogo com o que estas histórias nos narram. O Génesis cap.2, versículo 7 narra a Criação da Humanidade (em hebraico Adão) quer dizer o ser indiferenciado. Este ser humano está situado num contexto em relação aos vegetais que são eles também extraídos do solo. Está também situado em relação aos animais que são modelos fora do solo como ele. Mas a diferença para com o ser humano, é que o animal não é capaz de falar. Quando o homem dá nomes ao animal este não lhe responde. No Cap. 2, v.16-17, o ser humano é também colocado em relação a ele próprio numa lei que não é arbitrária mas que estrutura o ser humano como um ser relacionável. E o Senhor Deus ordenou ao homem; “Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas não podes comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comeres com certeza morrerás”. Esta lei é, em primeiro lugar, positiva pois ela convida o homem a gozar de toda a criação, de deixar ir o seu desejo em direcção a tudo o que Deus lhe deu (ver também v.9: “...todas as espécies de árvores formosas de ver e boas para comer”). Mas no segundo tempo, Deus coloca um limite: O homem deve comer de tudo mas ele não pode comer de tudo. É necessário que aceite uma falta, um limite. Deve aprender a dizer não ao infinito do seu desejo sem que se exponha a morrer. Para os Semitas e para os que escreveram a Bíblia, a morte não significa em princípio a morte física. Para eles, é o aspecto relacional que é importante quando falam de morte. Do nascimento à morte, o homem é tecido de relações e mesmo antes do seu nascimento, ele é fruto de uma relação. A morte é sentida como o fim de toda a relação. Se alguém se deixa levar pelo seu desejo sem aceitar colocar um limite, ele segue um caminho de morte. Com efeito, se o homem vive segundo a linguagem da ambição, em que se torna o outro: O outro torna-se: - Quer seja no objecto do seu desejo: querer o outro para si mesmo - Quer seja no obstáculo ao seu desejo: o outro impede-o de aceitar o que quer só para si - Seja no instrumento do seu desejo: o outro serve-lhe para satisfazer o seu desejo. Nestas três posições, o outro não é pessoa, não é companheiro, ele não está assumido como um ser de relação. Além disso, nesta lógica de egoísmo, a linguagem não funciona bem. Se o outro é um objecto, um obstáculo ou um instrumento do meu desejo, eu não estou interessado em dizer-lhe a verdade. - se ele é o meu objecto, eu não lho digo, mas dizer-lhe-ei “amo-te”,por exemplo - se ele é um obstáculo e eu lhe digo a verdade, eu dou-lhe trunfos para usar contra mim - se ele é um instrumento, eu não lhe digo que é um descartável que eu deitarei fora depois de utilizá-lo. Ora, a linguagem é o suporte sobre o qual a comunidade humana se constrói. Se não pode ter confiança nas palavras do outro como construir uma solidariedade humana? Enveredar pela via do egoísmo, é relacionalmente falando, colocar-se numa posição de morte. Porque fala Deus da Árvore do conhecimento do bem e do mal? Ele fala pois na ordem relacional, é preciso aceitar um limite no seu próprio saber. Na relação, não se conhece “bem e mal” pois, mesmo para si, é já difícil saber o que é bem e mal. Em certos casais, as pessoas imaginam saber o que é bem para o outro. Mas então sofoca-se o outro, o que se pensa ser bem para o outro é com efeito o que é bem para si mesmo. O não conhecimento entre as pessoas permite precisamente criar o lugar da confiança. É quando eu não sei, que devo confiar no outro, naquilo que ele me diz. Quando eu confio, eu começo a conhecer o outro um pouco melhor pois é na confiança, dentro da relação que o outro revela progressivamente o que ele é e eu próprio revelo o que eu sou a verdade é que não se descobre a si mesmo senão numa relação justa. Neste versículo, não é o conhecimento que está interdito mas é o utilizar atalhos, é de crer que se conhece tudo do outro no momento em que, quando se crê conhecer tudo do outro, a única coisa que se conhece é a si mesmo. O que está proibido é não aceitar jogar o jogo da confiança o que supõe um “descontrolo”, um abandono. Para que o ser humano possa desabrochar, é necessário imperativamente que ele aceite a privação que ele aceite que não sabe tudo, que não viva seu desejo à maneira da ambição mas que pelo contrário, aceite o seu não saber, a seu desconhecimento de si e do outro para entrar progressivamente num conhecimento justo. Crer que se conhece o outro, é “conhecer mal”. Aceitar que se não sabe é entrar na confiança que permite ao outro dar-se a descobrir pouco a pouco, isto é “conhecer bem” Chegamos à criação da mulher (capitulo 2 vers.18,21,22,23). Logo após ter outorgado a lei que abre o ser à relação, Deus dá conta que não existe relação. Não está certo que o humano esteja só porque só, ele chega à morte. “Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe seja semelhante”. O termo é utilizado cerca de 40 vezes na Bíblia quase sempre numa intervenção especial de Deus para que a morte não vença. “Uma auxiliar à sua imagem”A palavra “como” introduz uma nuance vaga. Neste tipo de ajuda, não poderá determinar-se um a partir do outro. Desde o princípio, Deus diz que é uma relação que deverá adaptar-se. “À sua imagem” traduz a proximidade, um face a face que não é forçosamente romântico mas que pode ser de oposição, de resistência e no qual deve ter uma expressão de permuta. É por isso que este frente a frente tem uma dimensão de palavra, de comunicação que os animais não conseguem interpretar. Os versículos 21 e 22 enumeram as duas condições de modo a que ele possa ter uma ”auxiliar como sua imagem”. · Primeira condição = perder os sentidos. O torpor significa que na origem do outro, há uma perda de consciência. A origem do outro passa sempre despercebido. Isto está a colocar em relação com a falta de conhecimento evocado a propósito das árvores. · Segunda condição = aceitar perder qualquer coisa (“Deus toma uma das suas costelas…”) quer dizer consentir em ser privado, a não mais ser completo, a não mais crer que esta só. Estar ausente não é fácil porque é aceitar ser vulnerável, é aceitar não ser senão uma costela, de estar na insegurança e no avaliar a angústia do que falta. * “Deus cria a mulher e apresentou-a ao homem”. A expressão apresentar em hebraico é frequentemente utilizada no culto para falar das oferendas que se fazem. A mulher é oferecida ao homem como um Dom. Então o versículo 17 fala do dom no qual é preciso aceitar uma falta de conhecimento para que o dom não dê lugar à morte, neste ponto o versículo 21, é preciso em primeiro lugar aceitar uma falta para receber um dom que está sem proporção relativamente ao que se perdeu. O “menos” abre-se a um “mais” que é imenso em relação ao que se perdeu. É uma experiência fortemente vivida na relação amorosa. *Então o homem intervém: ”Esta é osso dos meus ossos, carne da minha carne”.O homem (em hebraico “ish”) tem uma reacção que se poderia crer positiva pois tem uma palavra de deslumbramento e fala da mulher (em Hebraico “isha”) em poesia. Ele constata que a mulher é da mesma natureza que ele e ao mesmo tempo constata que ela é diferente. Na realidade, esta intervenção do homem não é tão positiva como se poderia crer. 1. O homem limita a acção de Deus só ao facto de lhe ter tirado uma costela. Mas não coloca a questão de saber como esta costela se transformou na mulher. Ele faz como se aquilo que se tinha passado durante o sono não existisse. Ele não fala do dom de Deus (ele só o reconhece mais tarde v.12) 2. O homem não fala à mulher, ele não lhe diz “tu”, mas fala para si próprio. Ele não coloca a mulher ao seu nível. Ele utiliza três vezes a expressão “aquela” para falar da mulher. Pois ele não procura entrar em diálogo, o que era, porém, o desejo de Deus (ver vers.18). O homem verifica uma carência (o osso, a carne) e toma conhecimento da mulher: Ela é como eu pois ela é parte de mim. Ele nega assim o altruísmo e dá à mulher um nome (isha) que é baseado no nome que deu a si próprio (ish) e que sublinha sobretudo a semelhança. E aí ele comete um grave erro. Com efeito, quando Deus criou o homem e a mulher, fê-lo a partir do homem, ser indiferenciado que separa, criando uma lacuna. Quando o homem diz que a mulher foi extraída dele, ele coloca-se no centro e a mulher torna-se um apêndice do homem. Não situa a mulher na sua diferença. O homem afirma que sabe quem é a mulher e recupera-a como parte dele mesmo, como se ela não tivesse sido feita em separado. Tudo se passa como se o homem procurasse controlar a nova situação. Ele não toma o outro como pessoa, como interlocutor com receio que o outro lhe escape. Pois o chamado encantamento esconde qualquer outra coisa. Pode-se reencontrar esta situação em casais de hoje. Dizer “amo-te” pode por vezes querer dizer “eu quero-te para mim só” ou “eu quero que tu te tornes no que eu desejo que tu sejas”. Numa linguagem humana, pode-se iludir. No fim do versículo 23, o narrador considera que o momento em que o homem comete este grave erro é de tal modo importante que ele nos diz no versículo 24: “Por isso um homem deixa o seu pai e a sua mãe e une-se á sua mulher e os dois tornam-se uma só carne”. A expressão “Por isso” pode-se traduzir como segue: “Visto que as coisas se passam assim, visto que instintivamente quando se entra em relação com o outro, quer-se recuperá-lo, visto que o homem traz consigo a mulher para a intimidade, para a família que o tranquiliza sem notar a diferença”.Visto que ele se conduz assim, diz o narrador, será necessário deixar o pai e a mãe, será necessário deixar as relações douradoras, evitar de pensar que o parceiro vai substituir pai, mãe para se unir ao outro e tornar-se então uma só carne. A expressão “uma só carne” não significa de modo nenhum fraqueza mas significa tornar-se um indivíduo extraordinário na sua fragilidade em justa relação com o outro. O narrador continua a história com o versículo 25: “E o homem e a mulher estavam nus e não sentiam vergonha” De novo aparentemente, a relação é ideal: O homem e a mulher podem mostrar-se tal qual são e não têm vergonhas de estar juntos. Com efeito, é sempre a mesma cegueira. Algures no capítulo 3, vers.7 diz:”Então abriram-se os olhos aos dois, eles perceberam que estavam nus. Entrelaçaram folhas de figueira e fizeram tangas”.Pois que até lá, eles não vêm que estão nus. O que é lógico já que a mulher não faz o contrário: Ela deixa-se afirmar pelo homem. Algures o narrador não fala do homem e da mulher, mas do humano e da sua mulher: é o ser indiferenciado com a sua mulher. Além disso, não é um e o outro que estão nus mas são eles os dois, numa espécie de “um todo” vago. Esta história de Adão e Eva aborda como vão as coisas quando se cede ao desejo sem limites, quando se deixa conduzir à angústia do fim, da privação, à angústia que provoca a inquietante discordância do outro. Aqui, no versículo 25, O homem já comeu a maçã, ele não aceitou a perda dos sentidos necessária para uma relação equilibrada. A mulher também joga o mesmo jogo pois ela vai comer o fruto proibido. Ela não aceita tão pouco a privação pois ela quer ser como Deus conhecendo o bem e o mal segundo as palavras da serpente. Ambos se deixam levar pelo livre desejo. As consequências para um tal casal são repetição do versículo 7 do capítulo 3 já acima mencionado. Aí se vê como a ambição leva à desconfiança. O homem e a mulher protegem-se um do outro e eles desconfiam também de Deus pois eles vão esconder-se entre as árvores do jardim. No Capítulo 3, vers. 12, o homem acusa então a mulher para ter circunstâncias atenuantes “ A mulher que me deste por companheira deu-me o fruto e eu comi”. Aí, o homem reconhece que a mulher é um dom, mas é um dom envenenado! As consequências da ambição são também narradas no capítulo 3 vers. 16:”A paixão vai arrastar-te para o marido e ele te dominará”. No vers. 20, disse: O homem deu à sua mulher o nome de EVA (vivante), porque ela é a mãe de todos os viventes”. O homem dá unilateralmente um nome à sua esposa. Este não é mais um nome semelhante àquele que anteriormente ele dava a si mesmo (ish-isha) porém um nome como aqueles que dava aos animais. Ele situa a mulher como mãe de todos os viventes e não como sua esposa, como a sua imagem, como o seu outro. Então neste tipo de casal como vai situar-se a criança? No capítulo 4 conta a história de Caim e Abel. O versículo 1 diz: “O homem uniu-se a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz Caim. E disse: Adquiri um homem com a ajuda de Javé”. Neste ponto, a mulher é objecto de uma relação da qual o homem é sujeito e cujo verbo é “conhecer” no sentido sexual do termo. Esta relação não tem nada de idílico pois nas três expressões utilizadas em hebraico para falar da relação sexual “conhecer” é o único verbo em que o homem é sujeito e a mulher é objecto. Nas outras duas expressões “chegar perto de “ ou “deitar com” não se está numa relação de sujeito objecto. O verbo “conhecer” não é pois imparcial. Ele mostra que o homem exerce sobre a mulher um poder em que ela é o objecto possuído. Então, a mulher estando presa como objecto de uma relação, por seu lado, vai fazer-se vítima e diz: “Adquiri um homem”. Ela não dá à luz uma criança mas um homem que é a sua posse. Ela toma a criança para satisfazer a sua carência. Além disso, não é com o marido que ela diz ter tido esta criança mas com Deus. O homem é completamente inexistente como parceiro e como pai. Esta relação entre a mãe e a criança é do tipo incestuoso, e não pode ter senão consequências desastrosas. Caim está aprisionado nesta relação (eu sou para a minha mãe e a minha mãe é tudo para mim) e por consequência, desde que ele se veja privado de qualquer coisa, ele não o suportará. Quando o olhar de Deus pousar sobre o seu irmão Abel, ele não o suportará pois ele não consegue suportar a privação. Além disso, a relação entre Abel e sua mãe é enviesada desde o início. O vers. 2 diz: “Ela também deu à luz seu irmão Abel”. Eva não dá à luz um outro filho mas ela dá à luz o irmão de Caim. Abel não vem pois quebrar a relação funcional entre Caim e a sua mãe. Pois quando Deus faz existir Abel aceitando as suas oferendas, Caim não consegue aceitar e mata o seu irmão. Ele rejeita a presença do outro. Caim herda uma situação que não desejou mas Deus diz-lhe no vers. 7: “acaso conseguirás tu dominá-lo?”. Caim pode inverter e dominar a situação mas ele deixa-se levar pela ambição e, matando o outro ele excluiu-se do mundo dos homens. Conclusão. Quando a relação do casal se compromete de um modo que não é equilibrado (equilibrado no sentido de uma adaptação) a criança saída desta relação tem uma existência comprometida. A violência encontrada hoje nos jovens explica-se em parte pela falta de limites.
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