FICPM- Jornadas FICPM 2007

O Perdão - D. et C. Heriard

 

I – A Origem

Depois da paixão dos primeiros dias, instala-se muitas vezes uma certa rotina, de hábitos que conduzem, pouco a pouco, á perca das primeiras alegrias da vida partilhada.

Várias razões podem explicar este afastamento. Sai-se do sonho deste que se chama o período de idealização e surgem certas provocações. O casal já não está só numa situação de alegria mas também, por vezes, numa situação em que se tem a impressão de sufocar.

Face a esta situação duas soluções são possíveis. Ou o casal dispõe de uma grande humildade e de uma certa maturidade para juntos efectuarem este balanço e implementarem os ajustes que lhes permitam sair destes primeiros conflitos. Ou, o que é mais frequente, procura outros lugares de afirmação mais pessoais e mais facilmente valorizantes, dando assim uma impressão de nova liberdade.

Muitas vezes, com efeito, foge-se dos conflitos possíveis. Recusa-se ver a realidade, por vezes de maneira inconsciente, porque não se ousa dizer a si mesmo e ao outro o seu mau estar, ou sente que ele não o pode compreender. Isto pode-se juntar a um certo número de factores agravantes das diferenças que se instalam no seio do casal. Com efeito, ainda que partilhando tempos em comum pode haver diferenças de meio ambiente que trazem estas situações mais ou menos desconfortáveis. Como, por exemplo, diferenças no meio profissional de um e do outro mais ou menos valorizantes que podem vir a ampliar a impressão de mal-estar.

Por vezes também, a simples oscilação do conjugal verso inicio do parental conduz a uma assimetria no seio do casal. Há por exemplo etapas perturbadoras da primeira gravidez da mulher com as suas fases de alegria mas também de narcisismo que vem modificar a relação conjugal. Mesmo a tomada de consciência da maternidade e da paternidade faz-se em tempos diferentes para um e ara o outro.

A isto pode-se juntar outros elementos relacionais, as redes de amizade e a sua interacção com o casal.

Ainda mais, há a insuficiência de comunicação, todas as suas pequenas provocações que se não ousa dizer porque se pensa que isto não é importante mas que se acumulam. Para nós era, por exemplo, as peúgas deixadas do avesso, a massa que coze muito tempo, …

Não se sabe, não se ousa exprimir o negativo, então sente-se bem que se sai da fase amorosa. Este mal-estar assalta mas recusa-se a vê-lo, a dizê-lo, porque o sonho do encontro não está longe. Mas, á força de sufocar o negativo enche-se “o saco”… Quer-se ignorar todos estes pequenos sofrimentos porque eles realçam a fragilidade das nossas sensibilidades respectivas. E como está em nós mesmos ou no outro a origem destes sofrimentos, torna-se difícil dizer mal para com quem se colocou toda a paixão inicial.

Todas estas pequenas coisas podem ser, por vezes, sinais precursores de uma dificuldade mais profunda que tem a sua origem nestes distanciamentos progressivos. É o instante em que o casal não tem mais a sua razão se ser inicial (serem felizes juntos) e onde os sofrimentos mais importantes podem aparecer.

Não se pode falar com o outro sobre o seu sofrimento, como se podia fazer, tão facilmente, quando se tratava de sofrimentos “exteriores” porque desta vez é, no seio da relação conjugal que há o sofrimento.     

Todas estas situações criam um real mal entendido. Nós perdemos as estribeiras connosco e com o outro. Pode-se desafiar este novo conhecimento de si próprio e do outro no que respeita ao cônjuge, companheiro da relação. É-se finalmente muito desajeitadamente “cônjuges” um do outro. É uma fase importante de desencanto, a tomada de consciência que eu não sou a esposa que eu sonhava ser e que ele não é o esposo dos meus sonhos.   

II – Dizer o seu sofrimento

Percebe-se, de repente, tudo o que não agrada ao outro, o sofrimento que isto provoca em nós, sem, para tanto, ver até que ponto, nós também somos desajeitados e que fazemos também sofrer o outro. Enquanto se estava dentro do casulo numa etapa fechada balança-se de repente de um golpe numa fase onde ouro nos parece estranho, não controlável, mesmo inimigo. Nesta fase as palavras não surgem quer sejam agressivas, acusando, quer sejam de censura permanente. O “doce” diálogo inicial dá lugar a trocas verbais que não fazem se não piorar a distância entre os dois cônjuges.

a)    Que dizer ou outro? Como dize-lo?

O que sai naturalmente não é compreensível. Há demasiada agressividade… E ao mesmo tempo não mostra o sofrimento interior. Tanto que se não se tem tempo de distanciamento sobre o acontecimento não se pode ir ao fundo do problema… mas ao inverso, ir ao fundo das coisas é um pouco afundar-se nesta situação dolorosa. E encontrar o meio-termo é difícil.

É repartindo as suas emoções: cólera, tristeza, irritação… que se pode chegar a dizer ao outro não o que o que o magoe (que tu morras) mas o que é doloroso para nós neste momento” o problema não é a maneira como tu arrumas as meias mas o que isso provoca em mim. Eu não o suporto bem, porque… Eu tenho necessidade de lhe dizer, porque isto me impede de te amar ou mancha a minha maneira de te amor neste momento”.

Este exercício da expressão das nossas emoções negativas pode ser difícil para alguns de nós, da mesma maneira que pode ser praticamente insuportável escutar para o outro. E especialmente na media em que toca “ a nossa imagem”, nosso “orgulho” enquanto se sai precisamente de uma fase de sedução. Aquela ou aquele que eu seduzi não mais se deixa seduzir é o revés de uma parte da minha vida que eu imaginava ter bem conseguida… e visto que a “fase amorosa” me tinha curado, de uma certa maneira, de todos os meus sofrimentos passados. É a imagem que se tem de si mesmo, aquela que nos permite de ser, aquela que é atacada justamente pela pessoa que nos tinha permitido reconstruir-nos e valorizar-nos percebendo em nós o que se permitia confiar.  

E de certa maneira ela toca tanto aquele que fala como aquele que escuta.

É necessário igualmente acolher que, nos primeiros tempos, o outro não é capaz de entender as coisas negativas especialmente que ele possa ser enganador ou ofensivo. Porque é muito desconfortável entender, porque o que é dito é imenso, é necessário dar tempo ao outro de tornar-se receptivo. É necessário dar-lhe tempo de captar a mensagem. E porque ele não está no mesmo registo, na mesma situação, que ele não fez o mesmo trabalho interior. Mais permite-se dizer ao outro o seu sofrimento verdadeiro, a sua miséria interior, com efeito uma certa forma de desnudar-se, mais isto pode permitir ao outro mudar o registo, na medida em que se está na ordem do julgamento, numa batalha”exterior” mas numa procura da verdade, na ordem do sentir interior.

Por vezes, o outro fugindo do conflito porque se encontrou mais facilmente noutros espaços de liberdade não está em estado de experimentar esta situação. Quando um é mais pungente, quando o que ele tem a dizer é demasiado e indispensável para ele, o outro não pode escutá-lo, porque encontrou algures, algo que compensa o seu mal-estar. A assimetria é acentuada e visto que se encontra, como dizia Paul Devandre no congresso de Clairvaux, outros reservatórios, outros lugares de realização e equilíbrio. O reservatório conjugal secando-se, é o reservatório afectuoso, o dos amigos, do desporto e do trabalho que permite diluir o mal-estar Mas esta situação não é sempre simétrica, há capacidades de compensação que não são partilhadas e que aumentam o sofrimento de um mascarando o do outro.

É necessário encontrar o lugar e o tempo para permitir a tomada de consciência recíproca, para que este tipo de diálogo se instaure. O discernimento de um e de outro pode ser entretanto simulado pelas trocas de palavras sucessivas, mesmo desastrosas e sempre sofredoras, que exteriorizam o mal-estar, provocam e estimulam o encaminhamento de um e do outro.

Para além da expressão, vai ser preciso também que o outro tome consciência desta situação, que ele a faça sua. E em si, é toda a desilusão deste que está em causa. Do mesmo modo que o primeiro caiu no sofrimento, o outro deve cair, de uma certa forma, na perda de segurança que o protegia, sair da obstinação que lhe mascarava este sofrimento e tomar o caminho de uma sensata entrega interior.

O casal não está sempre em estado de encontrar o seu caminho sozinho. Ele tem muitas vezes necessidade de terceiros, de meios exteriores que permitam este trabalho.

Para nós, diversos elementos têm permitido salvar-nos do afundamento. A oração pessoal, as experiências difíceis da oração a dois, a leitura da Palavra, o dever de sentar das Equipas de Nossa Senhora. Tudo isto nos tem permitido, não sem esforço, aplicar pouco a pouco palavras, expressões para sair da situação.

A tomada de consciência destes obstáculos não eram excepcionais, mas comuns aos outros, pelo aspecto das mudanças, com outros casais, permitindo-nos relativizar. Isto permite-nos entrar numa nova dimensão, é a da esperança de que esta situação está finalmente ultrapassada, que a verdadeira mudança é possível. Nós pudemos instaurar assim um princípio de partilha, de reconstrução.

Isto também tem sido possível porque no fundo de nós, tínhamos o sentimento que se podia crer na “graça do nosso Matrimónio”. Esta louca esperança que um novo dinamismo era possível, e finalmente, alimentado profundamente pelos fundamentos das nossas escolhas iniciais, esta vontade inicial que nos tinha feito pronunciar “ eu te recebo e eu me dou a ti”.

O nosso compromisso no CPM permitiu também alimentar-nos de um dinamismo e uma frescura, da “ligeireza” dos jovens noivos, que vêm reviver em nós o que era em nós mais puro, esta força que nos fazia ultrapassar o sofrimento como o pudor. Nós tínhamos a oportunidade de ter em nós, no nosso intimo um projecto, de ser sustentado por esta fé no amor que se prolonga. E finalmente, talvez que seja isto a “graça do nosso Matrimónio”. Além disso o que nós não podíamos fazer humanamente, o amor verdadeiro, o amor de Deus estava depositado em nós e estava sempre presente.

É talvez por isso que o perdão era possível, porque ele não era um feito nosso mas porque ele vinha de Deus.

III – As torres

Uma releitura à posteriori…

Nós compreendemos e apercebemo-nos de tudo isto bem mais tarde sob a forma duma imagem recebida de terceiros mas que não cessou depois de habitar no nosso modo de conceber o perdão mas também todas as formas de diálogo.

Trata-se de uma imagem onde as duas pessoas do casal são dois castelos fortes, duas torres que simbolizam a sua existência humana.

Frequentemente, a torre que se constrói é bela, construída com o tempo, na estima pessoal. De vez em quando, beneficia de um pouco de trabalho de embelezamento para que a sua fachada pareça própria e limpa. Ela é feita dos nossos conhecimentos, das nossas vitórias e dos nossos desejos.

Mas por vezes a nossa torre é também um lugar de recuo, de enclausuramento sobre si mesmo. Refugia-se na sombra da torre para fugir à realidade do outro, para se proteger também.

No momento da escaramuça, cada um está no alto da sua torre e envia ao outro flores e elogios. As tentativas de diálogo tomam então forma de torneios da idade média. As flores, em seguida as flechas voam sem todavia alcançar o outro na sua realidade. Os elogios e as criticas fundem-se, as perguntas partem mas a escuta não é possível. Ela está bloqueada, reduzida pela distância, a concha interior construída pelo tempo.

O diálogo da “torre” é um diálogo de surdos, de sedução, a distância, a altura, a comparação perpétua de torres não permite um verdadeiro diálogo.

Então que fazer. É necessário decidir deixar o alto da sua torre, descer do seu saber e ir ao encontro do outro. Deixar a sua torre exige um primeiro trabalho interior. Uma descida a pé (sem elevador), onde se perde as suas certezas, onde se descobre as suas penumbras e luzes interiores mas onde também se encontra a sua própria interioridade.

Entrar em si mesmo, para além do efémero, pois deixar este interior, transpor o limiar, deixar o seu país para ir à torre do outro.

Uma vez neste novo interior, apercebe-se de uma outra interioridade mas também limites, teias de aranhas, obstáculos e a miséria na qual viu o outro. Se a fachada é bela, nada transparece a miséria interior. Não se tem que ficar muito tempo com o outro, é preciso voltar a partir sem demora em direcção à nossa própria torre e então tomar melhor consciência que a nossa persistência não era menos consertada, empoeirada e oscilante. É então que se pode decidir habitar um lugar mais “real” menos pomposo e mais verdadeiro. Convida-se um e outro a caminhar juntos de um modo mais modesto.

É preciso ser capaz de sair do seu contexto e interrogar-se sobre o estado interior do outro. Traduzir os humores e tristezas tanto de recuo como de sofrimento.

Escutar o bater íntimo do coração do outro. Debruçar-se para lá da fachada aparente de um “tudo vai bem”. Escutar os sinais e os batimentos da vida interior.

Entrar na torre do outro é um exercício que se aprende. Não se pode ocupá-la conquistando, cercando-a como uma praça-forte, mas pode-se entrar á escuta e com atenção, evidenciar e despertar os sofrimentos escondidos, sem para tanto se deixar fechar, sem se deixar invadir pelo outro. Estar atento, disponível e carinhoso, sem arrogância e com respeito. Aprende-se então a conhecer realmente o outro e a descobri-lo ao mesmo tempo. Passa-se de uma relação de sonho a uma relação real.

Entrar na torre do outro e regressar à sua. Não se pode ficar prisioneiro na sua própria torre. Não se pode tornar prisioneiro da torre do outro, mas reencontrar em si e no outro a força de viver de amar-se e de amar.

O diálogo das torres passa pela humildade, uma descida de toda a altura de uma torre construída no tempo. Descer da sua torre, é conhecer-se na sua verdade interior, com o que ela revela de uma outra beleza. Descer, é descobrir-se. Encontrar palavras simples. Expor-se também, pôr-se a nu diante do outro na fragilidade de uma alma que se descobre e se expõe. Exposição de um frente ao outro. Expor-se é instalar-se algures, no lugar do outro, um”outro modo de ser” diz o filósofo Lévinas, uma tenda leve, com muralhas mais ténues, mas onde em vez das torres refúgios torna-se disponível acima de tudo, ao outro mas também ao vento que sopra sobre a tenda…

À luz do que nós vos temos confiado das nossas primeiras emoções conjugais, podeis compreender porque esta imagem sustem o nosso casal e nos permite ultrapassar os “frequentes desequilíbrios”. Não que o caminho tenha terminado, mas como dizia o texto que nós tínhamos escolhido para leitura do nosso casamento “ Esquecendo o caminho percorrido, deixamo-nos seduzir por Cristo…” (Phil.3).

 

 

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