I – A Origem
Depois da paixão dos primeiros dias,
instala-se muitas vezes uma certa rotina, de hábitos que conduzem,
pouco a pouco, á perca das primeiras alegrias da vida partilhada.
Várias razões podem explicar este
afastamento. Sai-se do sonho deste que se chama o período de
idealização e surgem certas provocações. O casal já não está só numa
situação de alegria mas também, por vezes, numa situação em que se
tem a impressão de sufocar.
Face a esta situação duas soluções são
possíveis. Ou o casal dispõe de uma grande humildade e de uma certa
maturidade para juntos efectuarem este balanço e implementarem os
ajustes que lhes permitam sair destes primeiros conflitos. Ou, o que
é mais frequente, procura outros lugares de afirmação mais pessoais
e mais facilmente valorizantes, dando assim uma impressão de nova
liberdade.
Muitas vezes, com efeito, foge-se dos
conflitos possíveis. Recusa-se ver a realidade, por vezes de maneira
inconsciente, porque não se ousa dizer a si mesmo e ao outro o seu
mau estar, ou sente que ele não o pode compreender. Isto pode-se
juntar a um certo número de factores agravantes das diferenças que
se instalam no seio do casal. Com efeito, ainda que partilhando
tempos em comum pode haver diferenças de meio ambiente que trazem
estas situações mais ou menos desconfortáveis. Como, por exemplo,
diferenças no meio profissional de um e do outro mais ou menos
valorizantes que podem vir a ampliar a impressão de mal-estar.
Por vezes também, a simples oscilação
do conjugal verso inicio do parental conduz a uma assimetria no seio
do casal. Há por exemplo etapas perturbadoras da primeira gravidez
da mulher com as suas fases de alegria mas também de narcisismo que
vem modificar a relação conjugal. Mesmo a tomada de consciência da
maternidade e da paternidade faz-se em tempos diferentes para um e
ara o outro.
A isto pode-se juntar outros elementos
relacionais, as redes de amizade e a sua interacção com o casal.
Ainda mais, há a insuficiência de
comunicação, todas as suas pequenas provocações que se não ousa
dizer porque se pensa que isto não é importante mas que se acumulam.
Para nós era, por exemplo, as peúgas deixadas do avesso, a massa que
coze muito tempo, …
Não se sabe, não se ousa exprimir o
negativo, então sente-se bem que se sai da fase amorosa. Este
mal-estar assalta mas recusa-se a vê-lo, a dizê-lo, porque o sonho
do encontro não está longe. Mas, á força de sufocar o negativo
enche-se “o saco”… Quer-se ignorar todos estes pequenos sofrimentos
porque eles realçam a fragilidade das nossas sensibilidades
respectivas. E como está em nós mesmos ou no outro a origem destes
sofrimentos, torna-se difícil dizer mal para com quem se colocou
toda a paixão inicial.
Todas estas pequenas coisas podem ser,
por vezes, sinais precursores de uma dificuldade mais profunda que
tem a sua origem nestes distanciamentos progressivos. É o instante
em que o casal não tem mais a sua razão se ser inicial (serem
felizes juntos) e onde os sofrimentos mais importantes podem
aparecer.
Não se pode falar com o outro sobre o
seu sofrimento, como se podia fazer, tão facilmente, quando se
tratava de sofrimentos “exteriores” porque desta vez é, no seio da
relação conjugal que há o sofrimento.
Todas estas situações criam um real
mal entendido. Nós perdemos as estribeiras connosco e com o outro.
Pode-se desafiar este novo conhecimento de si próprio e do outro no
que respeita ao cônjuge, companheiro da relação. É-se finalmente
muito desajeitadamente “cônjuges” um do outro. É uma fase importante
de desencanto, a tomada de consciência que eu não sou a esposa que
eu sonhava ser e que ele não é o esposo dos meus sonhos.
II – Dizer o seu sofrimento
Percebe-se, de repente, tudo o que não
agrada ao outro, o sofrimento que isto provoca em nós, sem, para
tanto, ver até que ponto, nós também somos desajeitados e que
fazemos também sofrer o outro. Enquanto se estava dentro do casulo
numa etapa fechada balança-se de repente de um golpe numa fase onde
ouro nos parece estranho, não controlável, mesmo inimigo. Nesta fase
as palavras não surgem quer sejam agressivas, acusando, quer sejam
de censura permanente. O “doce” diálogo inicial dá lugar a trocas
verbais que não fazem se não piorar a distância entre os dois
cônjuges.
a)
Que dizer ou outro? Como
dize-lo?
O que sai naturalmente não é
compreensível. Há demasiada agressividade… E ao mesmo tempo não
mostra o sofrimento interior. Tanto que se não se tem tempo de
distanciamento sobre o acontecimento não se pode ir ao fundo do
problema… mas ao inverso, ir ao fundo das coisas é um pouco
afundar-se nesta situação dolorosa. E encontrar o meio-termo é
difícil.
É repartindo as suas emoções: cólera,
tristeza, irritação… que se pode chegar a dizer ao outro não o que o
que o magoe (que tu morras) mas o que é doloroso para nós neste
momento” o problema não é a maneira como tu arrumas as meias mas o
que isso provoca em mim. Eu não o suporto bem, porque… Eu tenho
necessidade de lhe dizer, porque isto me impede de te amar ou mancha
a minha maneira de te amor neste momento”.
Este exercício da expressão das nossas
emoções negativas pode ser difícil para alguns de nós, da mesma
maneira que pode ser praticamente insuportável escutar para o outro.
E especialmente na media em que toca “ a nossa imagem”, nosso
“orgulho” enquanto se sai precisamente de uma fase de sedução.
Aquela ou aquele que eu seduzi não mais se deixa seduzir é o revés
de uma parte da minha vida que eu imaginava ter bem conseguida… e
visto que a “fase amorosa” me tinha curado, de uma certa maneira, de
todos os meus sofrimentos passados. É a imagem que se tem de si
mesmo, aquela que nos permite de ser, aquela que é atacada
justamente pela pessoa que nos tinha permitido reconstruir-nos e
valorizar-nos percebendo em nós o que se permitia confiar.
E de certa maneira ela toca tanto
aquele que fala como aquele que escuta.
É necessário igualmente acolher que,
nos primeiros tempos, o outro não é capaz de entender as coisas
negativas especialmente que ele possa ser enganador ou ofensivo.
Porque é muito desconfortável entender, porque o que é dito é
imenso, é necessário dar tempo ao outro de tornar-se receptivo. É
necessário dar-lhe tempo de captar a mensagem. E porque ele não está
no mesmo registo, na mesma situação, que ele não fez o mesmo
trabalho interior. Mais permite-se dizer ao outro o seu sofrimento
verdadeiro, a sua miséria interior, com efeito uma certa forma de
desnudar-se, mais isto pode permitir ao outro mudar o registo, na
medida em que se está na ordem do julgamento, numa batalha”exterior”
mas numa procura da verdade, na ordem do sentir interior.
Por vezes, o outro fugindo do conflito
porque se encontrou mais facilmente noutros espaços de liberdade não
está em estado de experimentar esta situação. Quando um é mais
pungente, quando o que ele tem a dizer é demasiado e indispensável
para ele, o outro não pode escutá-lo, porque encontrou algures, algo
que compensa o seu mal-estar. A assimetria é acentuada e visto que
se encontra, como dizia Paul Devandre no congresso de Clairvaux,
outros reservatórios, outros lugares de realização e equilíbrio. O
reservatório conjugal secando-se, é o reservatório afectuoso, o dos
amigos, do desporto e do trabalho que permite diluir o mal-estar Mas
esta situação não é sempre simétrica, há capacidades de compensação
que não são partilhadas e que aumentam o sofrimento de um mascarando
o do outro.
É necessário encontrar o lugar e o
tempo para permitir a tomada de consciência recíproca, para que este
tipo de diálogo se instaure. O discernimento de um e de outro pode
ser entretanto simulado pelas trocas de palavras sucessivas, mesmo
desastrosas e sempre sofredoras, que exteriorizam o mal-estar,
provocam e estimulam o encaminhamento de um e do outro.
Para além da expressão, vai ser
preciso também que o outro tome consciência desta situação, que ele
a faça sua. E em si, é toda a desilusão deste que está em causa. Do
mesmo modo que o primeiro caiu no sofrimento, o outro deve cair, de
uma certa forma, na perda de segurança que o protegia, sair da
obstinação que lhe mascarava este sofrimento e tomar o caminho de
uma sensata entrega interior.
O casal não está sempre em estado de
encontrar o seu caminho sozinho. Ele tem muitas vezes necessidade de
terceiros, de meios exteriores que permitam este trabalho.
Para nós, diversos elementos têm
permitido salvar-nos do afundamento. A oração pessoal, as
experiências difíceis da oração a dois, a leitura da Palavra, o
dever de sentar das Equipas de Nossa Senhora. Tudo isto nos tem
permitido, não sem esforço, aplicar pouco a pouco palavras,
expressões para sair da situação.
A tomada de consciência destes
obstáculos não eram excepcionais, mas comuns aos outros, pelo
aspecto das mudanças, com outros casais, permitindo-nos relativizar.
Isto permite-nos entrar numa nova dimensão, é a da esperança de que
esta situação está finalmente ultrapassada, que a verdadeira mudança
é possível. Nós pudemos instaurar assim um princípio de partilha, de
reconstrução.
Isto também tem sido possível porque
no fundo de nós, tínhamos o sentimento que se podia crer na “graça
do nosso Matrimónio”. Esta louca esperança que um novo dinamismo era
possível, e finalmente, alimentado profundamente pelos fundamentos
das nossas escolhas iniciais, esta vontade inicial que nos tinha
feito pronunciar “ eu te recebo e eu me dou a ti”.
O nosso compromisso no CPM permitiu
também alimentar-nos de um dinamismo e uma frescura, da “ligeireza”
dos jovens noivos, que vêm reviver em nós o que era em nós mais
puro, esta força que nos fazia ultrapassar o sofrimento como o
pudor. Nós tínhamos a oportunidade de ter em nós, no nosso intimo um
projecto, de ser sustentado por esta fé no amor que se prolonga. E
finalmente, talvez que seja isto a “graça do nosso Matrimónio”. Além
disso o que nós não podíamos fazer humanamente, o amor verdadeiro, o
amor de Deus estava depositado em nós e estava sempre presente.
É talvez por isso que o perdão era
possível, porque ele não era um feito nosso mas porque ele vinha de
Deus.
III – As torres
Uma releitura à posteriori…
Nós compreendemos e apercebemo-nos de
tudo isto bem mais tarde sob a forma duma imagem recebida de
terceiros mas que não cessou depois de habitar no nosso modo de
conceber o perdão mas também todas as formas de diálogo.
Trata-se de uma imagem onde as duas
pessoas do casal são dois castelos fortes, duas torres que
simbolizam a sua existência humana.
Frequentemente, a torre que se
constrói é bela, construída com o tempo, na estima pessoal. De vez
em quando, beneficia de um pouco de trabalho de embelezamento para
que a sua fachada pareça própria e limpa. Ela é feita dos nossos
conhecimentos, das nossas vitórias e dos nossos desejos.
Mas por vezes a nossa torre é também
um lugar de recuo, de enclausuramento sobre si mesmo. Refugia-se na
sombra da torre para fugir à realidade do outro, para se proteger
também.
No momento da escaramuça, cada um está
no alto da sua torre e envia ao outro flores e elogios. As
tentativas de diálogo tomam então forma de torneios da idade média.
As flores, em seguida as flechas voam sem todavia alcançar o outro
na sua realidade. Os elogios e as criticas fundem-se, as perguntas
partem mas a escuta não é possível. Ela está bloqueada, reduzida
pela distância, a concha interior construída pelo tempo.
O diálogo da “torre” é um diálogo de
surdos, de sedução, a distância, a altura, a comparação perpétua de
torres não permite um verdadeiro diálogo.
Então que fazer. É necessário decidir
deixar o alto da sua torre, descer do seu saber e ir ao encontro do
outro. Deixar a sua torre exige um primeiro trabalho interior. Uma
descida a pé (sem elevador), onde se perde as suas certezas, onde se
descobre as suas penumbras e luzes interiores mas onde também se
encontra a sua própria interioridade.
Entrar em si mesmo, para além do
efémero, pois deixar este interior, transpor o limiar, deixar o seu
país para ir à torre do outro.
Uma vez neste novo interior,
apercebe-se de uma outra interioridade mas também limites, teias de
aranhas, obstáculos e a miséria na qual viu o outro. Se a fachada é
bela, nada transparece a miséria interior. Não se tem que ficar
muito tempo com o outro, é preciso voltar a partir sem demora em
direcção à nossa própria torre e então tomar melhor consciência que
a nossa persistência não era menos consertada, empoeirada e
oscilante. É então que se pode decidir habitar um lugar mais “real”
menos pomposo e mais verdadeiro. Convida-se um e outro a caminhar
juntos de um modo mais modesto.
É preciso ser capaz de sair do seu
contexto e interrogar-se sobre o estado interior do outro. Traduzir
os humores e tristezas tanto de recuo como de sofrimento.
Escutar o bater íntimo do coração do
outro. Debruçar-se para lá da fachada aparente de um “tudo vai bem”.
Escutar os sinais e os batimentos da vida interior.
Entrar na torre do outro é um
exercício que se aprende. Não se pode ocupá-la conquistando,
cercando-a como uma praça-forte, mas pode-se entrar á escuta e com
atenção, evidenciar e despertar os sofrimentos escondidos, sem para
tanto se deixar fechar, sem se deixar invadir pelo outro. Estar
atento, disponível e carinhoso, sem arrogância e com respeito.
Aprende-se então a conhecer realmente o outro e a descobri-lo ao
mesmo tempo. Passa-se de uma relação de sonho a uma relação real.
Entrar na torre do outro e regressar à
sua. Não se pode ficar prisioneiro na sua própria torre. Não se pode
tornar prisioneiro da torre do outro, mas reencontrar em si e no
outro a força de viver de amar-se e de amar.
O diálogo das torres passa pela
humildade, uma descida de toda a altura de uma torre construída no
tempo. Descer da sua torre, é conhecer-se na sua verdade interior,
com o que ela revela de uma outra beleza. Descer, é descobrir-se.
Encontrar palavras simples. Expor-se também, pôr-se a nu diante do
outro na fragilidade de uma alma que se descobre e se expõe.
Exposição de um frente ao outro. Expor-se é instalar-se algures, no
lugar do outro, um”outro modo de ser” diz o filósofo Lévinas, uma
tenda leve, com muralhas mais ténues, mas onde em vez das torres
refúgios torna-se disponível acima de tudo, ao outro mas também ao
vento que sopra sobre a tenda…
À luz do que nós vos temos confiado
das nossas primeiras emoções conjugais, podeis compreender porque
esta imagem sustem o nosso casal e nos permite ultrapassar os
“frequentes desequilíbrios”. Não que o caminho tenha terminado, mas
como dizia o texto que nós tínhamos escolhido para leitura do nosso
casamento “ Esquecendo o caminho percorrido, deixamo-nos seduzir por
Cristo…” (Phil.3).