A maioria das intervenções que me são
pedidas giram à volta do trabalho. Geralmente, trata-se de análises
ou de proposições para lutar contra o desemprego. Por vezes,
arrisco-me a dizer algumas palavras sobre a importância do trabalho
para a realização da pessoa e sobre o sofrimento de estar
desempregado, ou até também sem documentos. Ainda mais
raramente, sou interpelado sobre o vínculo com a fé, como o
Evangelho.
Mas é a primeira vez, que sou
desafiado para evocar este assunto enquanto cônjuge, casado há 22
anos. Porque o trabalho tanto pode ser bom como se abusar dele pode
prejudicar, em particular no seio do casal, sobretudo se esse
trabalho falta de sentido, de credibilidade. Não bebo, não fumo, mas
sou um viciado do trabalho e ainda por cima reivindico
esta ideia! Muitas vezes, saio cedo de manhã na ponta dos pés
para não acordar os que dormem e regresso tarde à noite, ainda na
ponta dos pés. No fim-de-semana e nas férias, o meu regime
profissional é apenas diferente. Deixo-me inteiramente levar pela
vida social e politica, em detrimento dos meus próximos, da minha
mulher, dos meus filhos, dos meus netos…Quem sou eu para vos falar?
Acho todavia que é porque os meus compromissos têm sentido
que são, bem ou mal aceites e apoiados pela minha
família. Quando a quantidade não está presente, é indispensável
compensar pela qualidade.
Escrevi dois livros. O primeiro, em
1995, intitulava-se «Todos no desemprego?». O segundo, em
2003, «Todos ao trabalho?». Em vista das eleições do próximo
10 de Junho, editei uma brochura de tamanho mais modesto, «Partir
para a reconquista do emprego» … sem pontos de interrogação.
Em 1974, a Bélgica consta 100 000
desempregados, principalmente de curta duração. De seguida, o
desemprego sobe implacavelmente, duplica, triplica, para se
estabilizar com 500 000 pessoas em 1984 cujo uma maioridade de
jovens e de desempregados de longa duração. Em 10 anos apenas, o
mercado do trabalho mudo de cara e essa transformação não
parou de se acentuar desde então. Em Wallonie e a Bruxelas o mercado
do trabalho tem duas facetas: emprego a tempo inteiro dos
qualificados com experiência de um lado, desemprego colectivo
dos jovens, dos mais velhos e dos poucos qualificados do outro.
Os primeiros não vivem necessariamente
na felicidade porque muitos devem assumir um ritmo de vida imparável
que deixa pouco espaço para a vida privada. Que dizer da realização
do casal quando três casamentos sobre quatro acabam num divórcio?
Para os últimos, não é fácil inserir-se na sociedade. 20% do
desemprego, mais de 30% na minha cidade em Liège: será que é
razoável não aproveitar um número tão grande de pessoas que poderiam
ser úteis?
Desde 1984, o desemprego ficou num
estado elevado. Aparentemente sem grande sequelas na vida económica.
A mal ou a bem, as empresas evoluem e desenvolvem-se,
o crescimento económico é satisfatório, as nossas exportações
portam-se bem, a dívida pública diminui…Será que o desemprego
colectivo se acompanha de miséria, de revolta? Não a segurança
social zela e a TV assegura o divertimento! A nossa sociedade
moderna acomodou-se ao desemprego. Uma simples evolução da
sociedade, sem dúvida: a rotina!
E o homem nisto tudo?
Sejamos claros, a minha vida no
quotidiano há cerca de 30 anos com rapazes e raparigas desempregados
deu-me uma convicção: o trabalho é bem um caminho de vida e de
realização pessoal. Ter falta dele conduz à perca de identidade, ou
até à destruição de si, ao ponto de morrer. Em Wallonie, 15% dos
jovens atingem a maior idade sem ter mais do que um diploma de
primária; são 18% neste caso em Bruxelas. Nessa idade, querem
trabalhar mas sem ter nas mãos uma profissão, como podem eles
conseguir?
Mais cedo ou mais tarde, aos 18 anos
ou aos 30 anos, ou até mais, vêm bater à porta de uma das nossas
empresas de economia social. Aí, uma formação profissional que se
baseia na prática, os espera. Uma formação pelo trabalho na obra ou
em oficina, em companhia de homens da profissão que lhes transmitem
o saber. Um pouco como Don Bosco que ensinava a matemática aos
putos da rua calculando com eles o número de tijolos necessários
para construir um muro! Ao termo dessa formação concreta, a maioria
encontra trabalho nas empresas locais, muitas vezes em rede com os
nossos organismos de formação.
Desde sempre, o que me interpela mais
nesse trabalho de inserção socioprofissional, é a mudança do
estatuto dos estagiários. Em poucos dias, endireitam-se e
reencontram o caminho do orgulho. De assistidos permanentemente
tornam-se homens e mulheres por inteiro. Para eles, o
trabalho é um remédio santo. Menos para aqueles que são afundados em
maus vícios, a transformação é rápida. O trabalho dá um sentido aos
seus dias, permite-lhes ganhar as suas vidas, de considerar uma
relação afectiva, ter projectos, de concretizar sonhos enterrados há
demasiado tempo. O trabalho também situa em relação à sociedade. Um
jovem estagiário que participa na construção de uma casa e a revê
alguns meses depois, habitada, sente um legítimo orgulho e de
possessão. «Esta casa é parte de mim; alguém a alugou ou comprou; o
meu trabalho, as minhas competências, têm um preço para a
sociedade».
Enfatizar, como alternativa ao
trabalho, uma “sociedade de lazer” e crer que, num grande impulso de
liberdade e generosidade, chegará o momento de criar um novo
contrato social por um sistema de “subsídio universal”…é, para mim,
uma falsidade de teórico em quarto.
Há mais de 20 anos, cada vez que uma
sondagem é realizada para hierarquizar as preocupações da população,
o emprego aparece nos três primeiros, muitas vezes em cabeça de
fila. Por trás de esta escolha maioritária, em realidade,
encontram-se vários casos. Existe o desempregado que se pergunta se
vai, por fim, encontrar trabalho. Existe o próximo de este
desempregado - o seu pai, a sua mãe…- que se preocupa por ele. Mas
existe também um grande número de pessoas, de trabalhadores activos
que vivem no medo de perder um dia o seu emprego e de não voltar a
encontrar outro.
Para quem tem, o trabalho nem sempre é
uma realização. Necessário para manter a sua família, o trabalho
pode desonrar, tornar-se rotineiro, acompanhar-se de relações de
trabalho penosas, ou até humilhantes…
Escolher a sua profissão, é para
aqueles que têm essa sorte, escolher o seu patrão o seu domínio de
actividade é uma decisão para a vida que entabula a vida. A sua e do
seu cônjuge. O salário não é tudo, muito pelo contrário às vezes. A
importância que concedemos ao nosso nível de salário é muitas vezes
o sinal de frustrações no nosso trabalho ou de escalas de valores
impróprios pelo individualismo e o ambiente materialista. Alguém
realizado no seu trabalho hesitará mudar de orientação mesmo com
sólidas vantagens à chave. Alguém de realizado no seu trabalho
deslocar-se-á à sua volta, também na sua vida privada.
Lembro-me que o lugar do trabalho em
relação à vida de casal e à opção de fundar uma família
frequentemente evocado em sessões CPM. Em particular para os casais
que não têm o mesmo horário ou que não trabalham na mesma cidade.
Vem também ao decima, a articulação mais ou menos difícil entre
filhos e carreira profissional assim como os problemas ligados à
perda do emprego, etc.
Esses desafios são bem reais, mas a
minha pouca experiência faz me pensar que quando o casal é unido e
generoso, quando a comunicação e o apoio mutual está presente, a
maior parte das situações podem ser geridas. O que mata um casal,
são os pequenos rompimentos sem reconciliação, o fechar-se numa
concha, a distância que se instala pouco a pouco. O que mata o
casal, não é tanto o facto de se ver pouco mas o facto de se ver sem
olhar para o outro. Quando amamos alguém levamo-lo em todo lado
connosco. Quando amamos e que o espírito do diálogo sopra sobre o
casal, quando as grandes escolhas da vida são tomadas de comum
acordo, o casal pode resistir e enfrentar ventos e marés.
As minhas palavras são um pouco
idílicas? Reconheço-o com muito gosto, mas o fundamento da vida a
dois está no entanto presente. Conheço muitos jovens casais que
fazem escolhas profissionais em conjunto sobre a base de uma certa
concepção da vida de família. Diminuição do trabalho em vista da
educação dos filhos, recuso de uma promoção para evita de cair nas
horas suplementares, escolha do local de domicílio (ou do local de
trabalho) para evitar deslocações demasiadas importantes.
Uma das coisas mais difíceis é sem
duvida quando um dos cônjuges trabalha e o outro se encontra em
situação de desemprego de longa duração. Perda de confiança em si,
censuras, vividas de maneira tão diferente que já não nos
percebemos… O casal pode ser seriamente abalado. Pode rebentar ou
ultrapassar isso. Falar com o seu cônjuge não implica sempre ser
entendido; estar com o seu cônjuge não supõe sempre falar.
Poderia acabar a minha intervenção
aqui e vos agradecer pela vossa atenção.
Mas faltaria uma dimensão, essencial
aos meus olhos… O trabalho pode ser também caminho de solidariedade
e, para alguns, de busca de Deus. A solidariedade vive-se ao
quotidiano em actos concretos e, porque não, em todos os acto da
vida, tão privada como profissional. Não há um tempo para ser
egoísta e outro para ser generoso. A solidariedade, é a verdadeira
alegria; é melhor aproveitar sempre, inclusivo no trabalho!
Quer dizer que toda a gente deveria
alistar-se no social? Não! A sociedade – a comunidade dos filhos de
Deus – precisa de trabalhadores sociais, mas também de patrões,
de funcionários empenhados. A solidariedade não é
o próprio de algumas profissões, mas bem de uma atitude, de um
olhar, de uma mão estendida.
Ser solidário, é também ser uma pessoa
em que podemos acreditar, ao lado da qual podemos procurar ouvidos,
quer dizer respeito e palavra, quer dizer uma referência.
Ser solidário, é também pôr-se em
busca de sentido, em busca de absoluto. O outro com quem entro em
relação, convida-me a me ultrapassar. O outro convida-me a uma
revolução copernica: o mundo não gira à volta da minha pequena
pessoa mas com os meus semelhantes, estou em órbita à volta da Vida,
à volta de Deus. No trabalho como na vida familiar e privada, os
pequenos gestos de solidariedade são, para mim, a melhor maneira de
entrar em comunhão com a Vida e Aquele que a criou.
Para dar luz a isso tudo, não conheço
melhor texto do que o Evangelho. O Evangelho não é uma tentativa de
filosofia ou de espiritualidade! O Evangelho, é a história de um
homem em relação, tão profunda como simples, com os seus semelhantes
por múltiplos factos solidários da vida de todos os dias.
Esta bela aventura, cada ser humano
tem direito de a viver. E por isso que, segundo eu, lutar contra o
desemprego e partir a reconquista do pleno emprego é dos mais lindos
desafios do mundo moderno. Assim como dar-se a mão e olhar juntos
para a mesma direcção é um dos presentes mais bonitos que a vida os
deu, um presente eterno. Para mim, a eternidade não é a promessa de
outra vida; a eternidade é presente, aqui e agora, cada vez que
vivemos, na luz interior, gestos e sentimentos que são eles eternos.