FICPM- Jornadas FICPM 2007

O trabalho caminho de vida e de realização? - Benoit Drèze

 

A maioria das intervenções que me são pedidas giram à volta do trabalho. Geralmente, trata-se de análises ou de proposições para lutar contra o desemprego. Por vezes, arrisco-me a dizer algumas palavras sobre a importância do trabalho para a realização da pessoa e sobre o sofrimento de estar desempregado, ou até também sem documentos. Ainda mais raramente, sou interpelado sobre o vínculo com a fé, como o Evangelho.

Mas é a primeira vez, que sou desafiado para evocar este assunto enquanto cônjuge, casado há 22 anos. Porque o trabalho tanto pode ser bom como se abusar dele pode prejudicar, em particular no seio do casal, sobretudo se esse trabalho falta de sentido, de credibilidade. Não bebo, não fumo, mas sou um viciado do trabalho e ainda por cima reivindico esta ideia! Muitas vezes, saio cedo de manhã na ponta dos pés para não acordar os que dormem e regresso tarde à noite, ainda na ponta dos pés. No fim-de-semana e nas férias, o meu regime profissional é apenas diferente. Deixo-me inteiramente levar pela vida social e politica, em detrimento dos meus próximos, da minha mulher, dos meus filhos, dos meus netos…Quem sou eu para vos falar? Acho todavia que é porque os meus compromissos têm sentido que são, bem ou mal aceites e apoiados pela minha família. Quando a quantidade não está presente, é indispensável compensar pela qualidade.

Escrevi dois livros. O primeiro, em 1995, intitulava-se «Todos no desemprego?». O segundo, em 2003, «Todos ao trabalho?». Em vista das eleições do próximo 10 de Junho, editei uma brochura de tamanho mais modesto, «Partir para a reconquista do emprego» … sem pontos de interrogação.

Em 1974, a Bélgica consta 100 000 desempregados, principalmente de curta duração. De seguida, o desemprego sobe implacavelmente, duplica, triplica, para se estabilizar com 500 000 pessoas em 1984 cujo uma maioridade de jovens e de desempregados de longa duração. Em 10 anos apenas, o mercado do trabalho mudo de cara e essa transformação não parou de se acentuar desde então. Em Wallonie e a Bruxelas o mercado do trabalho tem duas facetas: emprego a tempo inteiro dos qualificados com experiência de um lado, desemprego colectivo dos jovens, dos mais velhos e dos poucos qualificados do outro.

Os primeiros não vivem necessariamente na felicidade porque muitos devem assumir um ritmo de vida imparável que deixa pouco espaço para a vida privada. Que dizer da realização do casal quando três casamentos sobre quatro acabam num divórcio? Para os últimos, não é fácil inserir-se na sociedade. 20% do desemprego, mais de 30% na minha cidade em Liège: será que é razoável não aproveitar um número tão grande de pessoas que poderiam ser úteis?

Desde 1984, o desemprego ficou num estado elevado. Aparentemente sem grande sequelas na vida económica. A mal ou a bem, as empresas evoluem e desenvolvem-se, o crescimento económico é satisfatório, as nossas exportações portam-se bem, a dívida pública diminui…Será que o desemprego colectivo se acompanha de miséria, de revolta? Não a segurança social zela e a TV assegura o divertimento! A nossa sociedade moderna acomodou-se ao desemprego. Uma simples evolução da sociedade, sem dúvida: a rotina!

E o homem nisto tudo?

Sejamos claros, a minha vida no quotidiano há cerca de 30 anos com rapazes e raparigas desempregados deu-me uma convicção: o trabalho é bem um caminho de vida e de realização pessoal. Ter falta dele conduz à perca de identidade, ou até à destruição de si, ao ponto de morrer. Em Wallonie, 15% dos jovens atingem a maior idade sem ter mais do que um diploma de primária; são 18% neste caso em Bruxelas. Nessa idade, querem trabalhar mas sem ter nas mãos uma profissão, como podem eles conseguir?

Mais cedo ou mais tarde, aos 18 anos ou aos 30 anos, ou até mais, vêm bater à porta de uma das nossas empresas de economia social. Aí, uma formação profissional que se baseia na prática, os espera. Uma formação pelo trabalho na obra ou em oficina, em companhia de homens da profissão que lhes transmitem o saber. Um pouco como Don Bosco que ensinava a matemática aos putos da rua calculando com eles o número de tijolos necessários para construir um muro! Ao termo dessa formação concreta, a maioria encontra trabalho nas empresas locais, muitas vezes em rede com os nossos organismos de formação.

Desde sempre, o que me interpela mais nesse trabalho de inserção socioprofissional, é a mudança do estatuto dos estagiários. Em poucos dias, endireitam-se e reencontram o caminho do orgulho. De assistidos permanentemente tornam-se homens e mulheres por inteiro. Para eles, o trabalho é um remédio santo. Menos para aqueles que são afundados em maus vícios, a transformação é rápida. O trabalho dá um sentido aos seus dias, permite-lhes ganhar as suas vidas, de considerar uma relação afectiva, ter projectos, de concretizar sonhos enterrados há demasiado tempo. O trabalho também situa em relação à sociedade. Um jovem estagiário que participa na construção de uma casa e a revê alguns meses depois, habitada, sente um legítimo orgulho e de possessão. «Esta casa é parte de mim; alguém a alugou ou comprou; o meu trabalho, as minhas competências, têm um preço para a sociedade».

Enfatizar, como alternativa ao trabalho, uma “sociedade de lazer” e crer que, num grande impulso de liberdade e generosidade, chegará o momento de criar um novo contrato social por um sistema de “subsídio universal”…é, para mim, uma falsidade de teórico em quarto.

Há mais de 20 anos, cada vez que uma sondagem é realizada para hierarquizar as preocupações da população, o emprego aparece nos três primeiros, muitas vezes em cabeça de fila. Por trás de esta escolha maioritária, em realidade, encontram-se vários casos. Existe o desempregado que se pergunta se vai, por fim, encontrar trabalho. Existe o próximo de este desempregado - o seu pai, a sua mãe…- que se preocupa por ele. Mas existe também um grande número de pessoas, de trabalhadores activos que vivem no medo de perder um dia o seu emprego e de não voltar a encontrar outro.

Para quem tem, o trabalho nem sempre é uma realização. Necessário para manter a sua família, o trabalho pode desonrar, tornar-se rotineiro, acompanhar-se de relações de trabalho penosas, ou até humilhantes…

Escolher a sua profissão, é para aqueles que têm essa sorte, escolher o seu patrão o seu domínio de actividade é uma decisão para a vida que entabula a vida. A sua e do seu cônjuge. O salário não é tudo, muito pelo contrário às vezes. A importância que concedemos ao nosso nível de salário é muitas vezes o sinal de frustrações no nosso trabalho ou de escalas de valores impróprios pelo individualismo e o ambiente materialista. Alguém realizado no seu trabalho hesitará mudar de orientação mesmo com sólidas vantagens à chave. Alguém de realizado no seu trabalho deslocar-se-á à sua volta, também na sua vida privada.

Lembro-me que o lugar do trabalho em relação à vida de casal e à opção de fundar uma família frequentemente evocado em sessões CPM. Em particular para os casais que não têm o mesmo horário ou que não trabalham na mesma cidade. Vem também ao decima,  a articulação mais ou menos difícil entre filhos e carreira profissional assim como os problemas ligados à perda do emprego, etc.

Esses desafios são bem reais, mas a minha pouca experiência faz me pensar que quando o casal é unido e generoso, quando a comunicação e o apoio mutual está presente, a maior parte das situações podem ser geridas. O que mata um casal, são os pequenos rompimentos sem reconciliação, o fechar-se numa concha, a distância que se instala pouco a pouco. O que mata o casal, não é tanto o facto de se ver pouco mas o facto de se ver sem olhar para o outro. Quando amamos alguém levamo-lo em todo lado connosco. Quando amamos e que o espírito do diálogo sopra sobre o casal, quando as grandes escolhas da vida são tomadas de comum acordo, o casal pode resistir e enfrentar ventos e marés.

As minhas palavras são um pouco idílicas? Reconheço-o com muito gosto, mas o fundamento da vida a dois está no entanto presente. Conheço muitos jovens casais que fazem escolhas profissionais em conjunto sobre a base de uma certa concepção da vida de família. Diminuição do trabalho em vista da educação dos filhos, recuso de uma promoção para evita de cair nas horas suplementares, escolha do local de domicílio (ou do local de trabalho) para evitar deslocações demasiadas importantes.

Uma das coisas mais difíceis é sem duvida quando um dos cônjuges trabalha e o outro se encontra em situação de desemprego de longa duração. Perda de confiança em si, censuras, vividas de maneira tão diferente que já não nos percebemos… O casal pode ser seriamente abalado. Pode rebentar ou ultrapassar isso. Falar com o seu cônjuge não implica sempre ser entendido; estar com o seu cônjuge não supõe sempre falar.

Poderia acabar a minha intervenção aqui e vos agradecer pela vossa atenção.

Mas faltaria uma dimensão, essencial aos meus olhos… O trabalho pode ser também caminho de solidariedade e, para alguns, de busca de Deus. A solidariedade vive-se ao quotidiano em actos concretos e, porque não, em todos os acto da vida, tão privada como profissional. Não há um tempo para ser egoísta e outro para ser generoso. A solidariedade, é a verdadeira alegria; é melhor aproveitar sempre, inclusivo no trabalho!

Quer dizer que toda a gente deveria alistar-se no social? Não! A sociedade – a comunidade dos filhos de Deus – precisa de trabalhadores sociais, mas também de patrões, de funcionários empenhados. A solidariedade não é o próprio de algumas profissões, mas bem de uma atitude, de um olhar, de uma mão estendida.

Ser solidário, é também ser uma pessoa em que podemos acreditar, ao lado da qual podemos procurar ouvidos, quer dizer respeito e palavra, quer dizer uma referência.

Ser solidário, é também pôr-se em busca de sentido, em busca de absoluto. O outro com quem entro em relação, convida-me a me ultrapassar. O outro convida-me a uma revolução copernica: o mundo não gira à volta da minha pequena pessoa mas com os meus semelhantes, estou em órbita à volta da Vida, à volta de Deus. No trabalho como na vida familiar e privada, os pequenos gestos de solidariedade são, para mim, a melhor maneira de entrar em comunhão com a Vida e Aquele que a criou.

Para dar luz a isso tudo, não conheço melhor texto do que o Evangelho. O Evangelho não é uma tentativa de filosofia ou de espiritualidade! O Evangelho, é a história de um homem em relação, tão profunda como simples, com os seus semelhantes por múltiplos factos solidários da vida de todos os dias.

Esta bela aventura, cada ser humano tem direito de a viver. E por isso que, segundo eu, lutar contra o desemprego e partir a reconquista do pleno emprego é dos mais lindos desafios do mundo moderno. Assim como dar-se a mão e olhar juntos para a mesma direcção é um dos presentes mais bonitos que a vida os deu, um presente eterno. Para mim, a eternidade não é a promessa de outra vida; a eternidade é presente, aqui e agora, cada vez que vivemos, na luz interior, gestos e sentimentos que são eles eternos.

 

 

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