|
FICPM- Jornadas FICPM 2009 Que perguntas para o futuro? |
|
“Eu queria um filho teu”: todos nós já ouvimos, na literatura, no cinema ou na vida real esta forma de dizer “eu te amo”. Desde Platão, sabemos e experimentamos a existência de uma profunda afinidade entre o amor e o desejo de “procriar” juntos. Nós não amamos só para nos olharmos nos olhos, mesmo se é importante. Nós não nos unimos só para estar a dois, mesmo se é importante. Nós amamos, nós nos unimos para dar frutos. O poeta René Char disse-o da seguinte maneira: “Que o nosso ninho[1] de amor se prolonga depois de nós E erga a sua penumbra num olhar sonhador Sim, isso pode nos fazer felizes[2]” Este profundo laço é muitas vezes esquecido nos nossos dias. Muitas vezes o amor é encarado só de forma dualista, romântica. Muitas vezes a perspectiva é limitada ao casal. Alguns chamam a este obstáculo “egoísmo conjugal”. Refere-se não só ao amor, mas também ao próprio casamento É significativo que, em França e provavelmente também em outros países, a palavra “conjugalidade” substitua a palavra “casamento”. A conjugalidade é o próprio casal: as duas palavras têm origens próximas: “conjugalidade” provem de “con-jugium”, que significa “jugo comum”, laço. “Casal” provém de “copula”, que também significa laço. O casamento extravasa a conjugalidade. O casamento é, por definição, intrinsecamente e universalmente, a criação de uma família. No senso comum, designa-se o casamento como “instituição matrimonial” e não como “instituição conjugal”: ora matrimonial significa, na sua origem, a cargo da mãe, “matris-munus”. O homem compromete-se a proteger a mãe, a ser reconhecido como o pai dos filhos que a sua esposa terá. Um grande jurista francês, o decano Jean Carbonnier dizia num colóquio que a presunção da paternidade é ainda hoje o “coração do casamento[3]”. Ele afirmou que o casamento era “uma instituição virada para o futuro”. Do ponto de vista antropológico, o casamento é a instituição que articula a aliança entre os sexos e a sucessão das gerações; é a única a fazê-lo. A articulação entre conjugalidade e parentalidade está presente na palavra “casamento” – o que é comum actualmente, é a separação entre conjugalidade e parentalidade. Usando estes dois termos individualmente, começa-se por separar o que mais tarde vamos querer unir. A palavra “parentalidade”, que designa um conjunto de funções, predispõe a esta separação. O termo “parente” é diferente, pois refere-se a condição de ser pai, no plural, pai e mãe, o que aborda necessariamente a questão da ligação. Ninguém é pai sozinho. Enquanto a parentalidade se pode exercer sozinho. Pode ser útil distinguir conjugalidade de parentalidade, mas é importante reuni-los. Vimos que o dinamismo do amor, como a lógica da instituição, apela a esta união, a este enriquecimento mútuo. I. Várias formas de dissociar Existem, actualmente, várias formas de dissociar conjugalidade de parentalidade. Apontarei, hoje, cinco formas: 1. separamo-las pela palavra “se”, como anteriormente. Cedemos ao egoísmo conjugal se fizermos do amor um fim em si mesmo; se, ao falarmos de casal, o vemos, apenas, em termos de prazer, de comunicação, de bem-estar. A maior parte do tempo só se fala da fecundidade como acidente mal recebido em consequência da sexualidade. A vinda de um filho é colocada muitas vezes junto de “coisas” a evitar, tais como as doenças sexualmente transmissíveis ou a sida, o filho não está em boa companhia! Por outro lado, um certo romantismo reduz o amor ao sentimento. Fala-se dele só em termos de emoção, de afecto, de paixão; esquece-se de falar dele em termos de obra, de construção, de realização, de dom - retomaremos esse assunto.
2. Dissociamos também ao ignorarmos a instituição, dando só importância ao subjectivo, ao afectivo, ao sentir. A instituição traz a objectividade, faz com que se entre num contexto de parentalidade de filiação, que é precisamente o do acolhimento dos filhos. Acontece muitas vezes, que casais, que vivem juntos, pensam em casar-se quando encaram ou esperam ter um filho. Sentem que o filho precisará de um enquadramento para a sua filiação, de uma dupla filiação, claramente estabelecida, de uma ligação publicamente declarada e reconhecida pelos dois pais. Mas, actualmente, ao lermos e ouvirmos que, em França, um filho, em dois, nasce fora do casamento, podemos perguntar-nos se as crianças em causa poderão obter este bem elementar, que é o de poder apoiar-se num laço estabelecido e instituído, desejado pelos pais. Em último caso, na união de facto, a criança é filho ou filha de dois solteiros. Sabe e sente que provém de dois seres que não selaram, entre eles, um pacto público e incondicional. Sabe ou sente que a união dos seus pais é frágil por natureza. Muitos testemunhos comprovam que é uma fonte de inquietude, mesmo de angústia, para a criança o sentir que a ligação entre os seus pais é precária, condicional e exclusivamente privada. 3. Uma terceira maneira de dissociar é insistir no facto que doravante, e cada vez mais, os alicerces de uma família não serão mais o casamento ou a aliança conjugal, mas sim a filiação, ou seja, será alicerçado na legitimação dos laços parentais, no duplo reconhecimento da paternidade e maternidade (como se ouve no seio da “intelligentsia” francesa). Foi assim que um magistrado pôde declarar:” na família moderna somos em primeiro lugar pais; a filiação é prioritária. A situação matrimonial está em segundo lugar[4].” Na realidade, não é sem duplicidade que fingimos acreditar que o compromisso parental pode aguentar-se sem o compromisso conjugal. De facto, com a ausência deste último, o percurso da história do casal tem muitas hipóteses de não coincidir com o percurso do filho. Os dados sociais confirmam-no: um estudo científico indica que no concubinato, a probabilidade de ruptura, em 10 anos, é 6 vezes maior que no casamento, quando não há filhos. E é 2 vezes maior quando há filhos. Um estudo similar no Canadá revela resultados próximos dos anteriormente citados[5]. Reconhecer um filho, é comprometer-se com ele. Mas de que vale este compromisso se transmitirmos a ideia de precariedade do casal, ou seja, a possibilidade de que mais cedo ou mais tarde, uma das partes possa se separar dele? Substituir a aliança pela filiação é apenas uma maneira aparente de criar uma família baseada no filho. Na realidade o que ficará na história, a posteriori, serão os acasos da vida de casal.
4. Daí advém uma quarta maneira de separar conjugalidade e parentalidade, a banalização do divórcio, por vezes apresentado como um “novo modelo”. Face ao divórcio e às separações, o discurso obrigatório, actualmente, é que “o casal parental sobrevive ao conjugal”. Há, sem dúvida, uma parte verdadeira nesta afirmação, pois, efectivamente, em caso de ruptura, terá de se favorecer o bem-estar das pessoas no sentido de consolidar o laço parental. Mas não devemos, contudo, esconder a realidade: um laço parental – prefiro dizer maternal ou paternal – dissociado do laço conjugal (ou seja, mais concretamente, se o pai ou a mãe não vive na mesma casa que o filho é separado do outro parente) é, pelo menos, amputado. Não permanece intacto. Mais ainda, ele é enfraquecido. Isto verifica-se sobretudo, e sem dúvida, no caso da ligação paternal. As estatísticas são conhecidas: após o divórcio, em 85% dos casos, a guarda dos filhos é confiada a mãe. É de facto a paternidade que é a principal vítima da fragilização do laço conjugal. Segundo as palavras da socióloga Evelyne Sullerot, o pai é o “disjuntor” que salta ao primeiro curto-circuito[6].
Diremos claramente, que estes pais mantêm uma ligação com os seus filhos. Parece, mesmo, que alguns se dedicam mais aos filhos após o divórcio, o que não é impossível. Mas, a longo prazo, não seria sensato negar a importância de tudo que nos liga ao quotidiano, através da vida partilhada sob um mesmo tecto, entre um pai e os seus filhos – mais ainda, entre um pai, uma mãe e os seus filhos. A paternidade vivida na ausência ou na interrupção é uma paternidade amputada.
Em mais de metade dos casos, o filho encontra-se com o pai menos de uma vez por trimestre (após um período de cinco anos). É preciso ver quais as implicações para as crianças desta vida “partilhada”[7] que lhes é imposta. Podemos pensar nisso ao vermos estas crianças percorrer, de comboio ou de avião, centenas de quilómetros para ir passar o fim-de-semana com o pai. Os que, durante muito tempo, ironizavam sobre as preocupações relativas aos “filhos do divórcio”, começam a levar a sério certos dados demográficos. Apercebemo-nos que, em França, 50% dos toxicodependentes são de famílias separadas, que a taxa de insucesso escolar é multiplicada por dois após a separação dos pais, que 80% dos adolescentes internados no sector psiquiátrico e 70% dos jovens em casas de correcção foram privados da presença paternal[8]. O sofrimento dos pais também deve ser tido em conta. Na sua obra, Que Pais? Que Filhos? Evelyne Sullerot descreve um quadro impressionante de situações de aflição em que se encontram, inúmeras vezes, os pais (pai) separados dos seus filhos. Um grande número é levado ao desespero, a depressão, ao isolamento social, ao alcoolismo e mesmo ao suicídio. Devem ser também referidas aqui as dificuldades encontradas pelas mães, elas são responsáveis, não por famílias monoparentais (expressão contraditória nos seus termos), mas sim por um lar monoparental. O peso dos dias para aquela que deve assumir a responsabilidade de um lar monoparental ou seja de uma grande parte dos papéis parentais, esgotam-na. Por outro lado, estudos mostram que a relação entre o progenitor ausente – geralmente o pai – e os filhos é mais frágil numa situação de concubinato que após divórcio. A proporção de pais (pai) que perdem uma relação contínua com os filhos é muito maior: cerca de dois terços[9].
5. Finalmente, resumindo, diria que a forma mais determinante de dissociar conjugalidade e parentalidade é fazer uma individualização da relação parental. Só o facto da palavra “parentalidade” se sobrepor às palavras “paternidade” e “maternidade” é significativo. Paternidade e maternidade coabitam uma com a outra. Enquanto parentalidade pode ser entendida como individual. Como se o amor de cada um desses dois progenitores se pudesse exercer independentemente da relação que liga os dois cônjuges. Como se pudesse ser pai sozinho. É prova disso o termo “família monoparental” que é uma contradição nos termos. Digamos “lar monoparental”, será mais justo. Um lar no qual falta um dos dois progenitores, à partida ainda vivo. Sabemos que não é fácil para uma criança viver só com a mãe ou com o pai – geralmente a mãe.
Assim como é extremamente difícil para uma mulher ser mãe sozinha. Provocar o distanciamento mas mantendo-se singularmente próxima. A presença paternal masculina leva a uma solicitude, mas também ao poder maternal um limite. Como escreveu um filósofo: “a ausência da mãe esvazia o mundo, a sua omnipresença destrói-o”[10]. No quadro das revisões das leis bioéticas em França, é colocada a questão de abrir às mulheres solteiras a possibilidade de poder recorrer aos métodos de reprodução medicamente assistida. Até agora, a lei exigia que o casal tivesse dois anos de vida em comum. Exigência, que mesmo frágil, tinha o mérito de relembrar que o filho, nascido de uma união, deve crescer e ser educado por um casal – em princípio o casal parental. A convenção internacional dos direitos da criança, no artigo 7, recorda que, “na medida do possível, a criança tem o direito de conhecer os seus pais e de ser criada por ambos”. Uma coisa é gerir situações pontuais, outra coisa é instituir. Prever na lei, a priori, que uma pessoa sozinha possa recorrer aos métodos de reprodução medicamente assistida, poderia provocar uma descriminação entre as crianças: seria, a partida, legitimar que milhares de crianças possam vir a ser privadas do bem humano essencial que é ter uma mãe e um pai. Ouso afirmar que não seria ético. Iríamos mesmo ao limite da separação entre conjugalidade e parentalidade.
II. A importância da articulação Esta articulação é fácil de resumir: a conjugalidade enriquece a parentalidade, a parentalidade enriquece a conjugalidade. Mais até, uma apela a outra, em profundidade. Ambas precisam uma da outra. A articulação da conjugalidade com a parentalidade nasce da conjunção entre sexualidade e fecundidade. Numa cultura, em que tudo leva a dissociar estas duas noções, é necessário relembrar a continuidade do sentido entre ambas. A fecundidade lança a união para o futuro: oferece-lhe um futuro personificado. “É no filho que eles passam a ser uma só carne”, podia afirmar Rachi, um mestre do judaísmo[11]. Contrariamente, na época das reproduções medicamente assistidas e das reivindicações homossexuais, é preciso afirmar que o enraizamento da paternidade e maternidade na carne, na união de um homem e de uma mulher faz parte da sua própria definição. Ter nascido de uma união, receber o seu corpo de dois outros corpos, não tem equivalente. Aqui, a doação da vida é um mistério: acontece graças a um acto que não é técnico, que mergulha numa profundidade insondável, ao mesmo tempo carnal e espiritual. Ainda mais porque ele não nasceu de duas pessoas separadas, o filho é educado por um homem e uma mulher independentemente do laço que os torna plenamente pai e mãe. A diferença entre a masculinidade do seu pai e feminilidade da sua mãe é uma fonte de sentido para ele. Faz parte de um dos bens mais elementares para ele. É o primeiro apoio para descobrir a sua própria identidade sexual. Ora, segundo a expressão do meu colega protestante Olivier Abel, “ a conjugalidade é o lugar onde interpretamos a diferença dos sexos”. Não vejo outro lugar onde a diferença sexual tenha uma tal importância. Tanto tempo para se desenvolver, tantas mediações concretas para se personificar. A solidez do laço que une o seu pai e a sua mãe é mesmo fundamental para uma criança. Esta não recebe somente o amor dos seus pais, directa e individualmente, mas recebe também o brilho do amor que une os pais. Foi título de um artigo recente “Os pais amam-se e os filhos colhem”. Noutros termos, o que um pai pode dar de mais precioso aos seus filhos, é a felicidade que ele dá a sua esposa. Christiane Singer: As crianças precisam apenas de uma coisa. Não de um amor apontado para eles, como se tratasse de uma arma branca. Só precisam de crescer na órbita do amor de um homem e de uma mulher[12]. (isto é, de ser amados por dois seres que se amam) É, pois, uma razão suplementar, acrescentada, mas não secundária, tudo fazer para que o laço seja sólido e vivo: que as crianças possam apoiar-se no laço que une os seus pais. È de bom-tom, há já alguns anos, afastarmo-nos da ideia de manter a união pelo bem das crianças. A ideia de “se sacrificar pelos filhos” é com certeza perigosa, pela simples razão que se a ligação é penosa, se o pai ou mãe são infelizes, o filho irá sofrer com a situação. É necessário que o laço seja “suficientemente bom” para que seja uma fonte de vida. Mas precisamente, os pais têm a obrigação perante os filhos de tornar este laço vivo e feliz. A ligação entre os pais constitui para eles o primeiro rochedo da realidade, no qual eles vão construir e descobrir a sua própria identidade. Por outras palavras, como vinham astuciosamente num jornal, os pais amam-se...os filhos recolhem. A articulação entre conjugalidade e parentalidade, a sua intersecção, o seu encontro permitem que o laço de filiação tenha a sua única chance de ser coerente. Sem ligação conjugal ou durável, as dimensões corporais, jurídicas, sociais e afectivas da filiação terão grandes probabilidades de serem dissociadas. Nos nossos dias, dizia Aldo Naouri numa conferência, há alguns anos atrás, em Marselha, uma criança pode ter sido concebida por um homem, ter recebido o nome por um segundo, ser educado por um terceiro, enquanto a sua mãe vive com um quarto. Não é difícil provar e é preciso ter a coragem para afirmar que o filho precisa de coerência. O argumento exacto é o seguinte: cada separação “no ser pais” introduz uma descontinuidade na vida da criança e cada uma dessas interrupções será mais uma dificuldade na história desse indivíduo É nesse caso que reencontramos a articulação entre conjugalidade e parentalidade, ou seja, o casamento como melhor enquadramento para definir a relação. Fora do casamento, a definição de pais oscila entre dois critérios: o reconhecimento voluntário e a “prova biológica”. Adivinha-se a insuficiência destes dois princípios. Nem o biológico, nem o voluntário permitem, isolados, definir a paternidade. A vontade é um intermediário obrigatório, mas é necessário limitar as balizas. Uma realidade tão vital como é a da instituição de um laço de filiação não pode depender da boa vontade dos adultos. Mas, por outro lado, não podemos definir paternidade como a consequência de um simples facto biológico. A dualidade do voluntário e do biológico deixa aparecer uma dupla carência. Esta insuficiência demonstra a necessidade do terceiro termo que será a aliança conjugal. O casamento dá imediatamente um quadro à parentalidade. O que se desenvolve na carne já pressupõe a ordem da palavra. Na aliança conjugal, o que poderia realçar as pretensões da vontade soberana e o que poderia realçar a objectividade biológica são ultrapassadas, eles existem um pelo outro... O carnal é impregnado de liberdade e a vontade é privada de si mesma com o consentimento de todas as implicações do carnal. Enfim, solidamente ancorados na sua conjugalidade, os pais estarão mais capacitados para transmitir aos seus filhos a capacidade de partir, de os deixar, sem que estes sintam que têm uma dívida de reciprocidade. A melhor fonte para descobrir a lei do desejo e da aliança é a que é deixada pelos seus pais. Segundo o psicanalista Philippe Jullien, “a verdadeira filiação é ter recebido dos seus pais o poder de os deixar para sempre, porque a conjugalidade dos seus pais era e continua em primeiro lugar[13]. Reciprocamente, é fácil demonstrar tudo o que a parentalidade (o facto de ser pais) e a filiação trazem à conjugalidade. O facto de os pais estarem juntos não basta para criar o laço, mas reforça-o, alimenta-o, enriquece-o fortemente. Os filhos são a encarnação da união, o seu prolongamento. Como diz Rachi, um mestre do judaísmo, “é no filho que se fazem uma só carne”. Os que conhecem a infelicidade da infertilidade são os primeiros a sabê-lo, a testemunhá-lo: pelo sofrimento em si, pela falta dolorosa que sentem. Se escolham um caminho de vida, são chamados a descobrir outras formas de fecundidade, daí a adopção. Depois, a história do casal será marcada pela história dos filhos: a sua chegada, o seu crescimento, as suas eventuais infelicidades, a sua partida, a sua maternidade e paternidade: tudo isso faz parte dos ingredientes que alimentam o laço conjugal não do exterior, como um consentimento ou ornamento, mas sim do interior, como uma seiva, como a sua vida: concretamente a sua alegria. O psicólogo Jean Calude Sagne propõe uma tipologia dos momentos da vida do casal: a constituição, a realização, a maturidade, a resolução. Olhando de perto, cada um desses momentos corresponde a um momento da história do filho: a constituição antes da sua chegada, a realização com o seu nascimento e crescimento, a maturidade com a tomada de consciência dos limites da educação e da família, a resolução com a sua partida. Ser esposos, é passar por todos estes momentos juntos. Uma longa caminhada, onde finalmente seremos avós juntos, se Deus quiser. Casar-se não é só a preparação para ser pai, mas também para ser avós. As alegrias e tristezas ligadas à parentalidade cruzam-se com as alegrias e tristezas ligadas a conjugalidade como um novelo, como um entrelaçado muito subtil, numa interacção recíproca que o psicólogo analisa como sendo voluntário, e também como espiritual. Em termos teológicos, a aliança conjugal (no sentimento cristão) situa-se no ponto de união entre o dom mútuo dos esposos e o dom da vida. Como diz Denis Vasse, “o casamento é o lugar da vida que se dá, e que se dá a um tal ponto que se traduz pelo nascimento de um filho”[14]. Parece então que o conceito de “dom” é insubstituível para descrever a articulação em questão. A aliança conjugal é o dom mútuo entre duas palavras, dois corpos, duas liberdades. Ora, esse dom não tem o fim em si mesmo, ele tende a comunicar, a dar frutos, a dar-se a si mesmo. E não é só efeito, coisa, mas sim acto, fonte. O homem e a mulher não juntam apenas os seus bens, os seus ter mas sim o seu ser, a sua vida mais íntima, a um tal ponto de intimidade que deste surge uma terceira vida. Segundo as palavras do padre Caffarel, “ amar-se, é dar-se um ao outro, para se entregar em união”[15]. Como o amor da Trindade, o amor conjugal dá nascimento a uma terceira pessoa, ela própria “dom” e capaz do “dom”. Pudemos dizer que o Espírito Santo era o “dom” em pessoa[16]. O carnal é imagem do espiritual, assim como participação real. Na fecundidade, os esposos-pais aprendem que dar a vida, é recebê-la. Nesta reciprocidade do dar e receber, descobrem uma verdade primordial: que a vida é “dom” no sentido activo (ou seja, que dá) e é “dom” no sentido passivo (dom dado). Eles experimentem a vida como graça, a identidade prática entre a vida, o amor e o dom. O que eles recebem do seu filho é indissociável do que recebem um do outro, e. reciprocamente[17]. III. Incidências pedagógicas Perguntamo-nos então: em que ponto estamos na preparação do casamento? Concebemos que este tempo nos prepara para a vida de casal (de casal antes de tudo) ou ousamos considerar que é também uma preparação para a vida familiar, e logo também para as funções parentais? Pensamos que os pombinhos que estão a nossa frente se preparem (também) a serem pais e mães, se Deus quiser? Pergunto-me, por vezes, se os nossos meios católicos não são vítimas do sucesso do pensamento cristão sobre o casamento. Há milhares de anos, o cristianismo nos diz que: “o essencial é o amor”. Não nos arriscamos assim em falar apenas de amor? O amor é tudo? Se me permitirem, citarei aqui uma fórmula que digo muitas vezes aos meus alunos: “o essencial não tudo”. Devemos alertar para dois excessos: - limitar-se ao casal, como acabamos de dizer, considerado a partida como casal apaixonado – que deveria sê-lo eternamente. - ou pelo contrário, referi-o anteriormente, como algumas pessoas consideram que é o filho que faz a família, que ele é a razão do laço entre os seus pais. Não, ele não pode ser a razão deste laço. Ele precisa, em profundidade, poder basear-se num laço anterior, mais fundamental, que é o laço da aliança entre os seus pais. Devem-se então evitar estes dois obstáculos. Deve-se afirmar que o laço da aliança, da aliança verdadeira, é o criador. Esta aliança não é um fim em si mesmo, que é chamada a se abrir, a dar-se, a incarnar-se noutras existências. Sinto que haveria incidências muito concretas na maneira como se fala do casamento e nas reuniões de preparação. Um exemplo, que me foi contado recentemente por um padre. Vêm ter com ele, para se preparar para o casamento, dois jovens pouco faladores. Chega a altura de colocar a questão, como sabem, o código canónico define este ponto como uma condição de validação do casamento: “Desejam ter filhos?” Um silêncio. Os pombinhos olham-se, perplexos e viram-se para o padre: “nunca falámos disso!”. Uma tal situação é possível! Vêem a amplitude do problema. Outro exemplo, outra aproximação: um amigo que vai às escolas para dar “educação afectiva” é recebido um dia pelo director que lhe diz: “não fale dos pais(pai) ”, pois há nas turmas muitas crianças que não têm pais (pai). O que pensar de uma tal atitude. Será não mencionando a palavra que acabaremos com o sofrimento de não se ter pai? Actuando assim, não estaremos a fazer como o bombeiro pirómano que agrava aquilo contra o qual ele deveria lutar? Não será banalizar, para o futuro destas crianças, o modelo de uma família sem pai? Que seria de uma sociedade onde não ousássemos pronunciar a palavra “pai”? Adivinhem, a mesma questão poderia se aplicada ao casamento. Da mesma forma que não ousamos falar em pai, também receamos falar em casamento. Sob o pretexto de algumas crianças terem pais não casados. E assim contribuirmos para a banalização do modelo de concubinato. Vêem a ligação entre estes dois silêncios, sobre os pais (pai) e sobre o casamento. Entre paternidade e casamento, existe uma ligação original. Estes dois termos, notaram, são mais específicos que “conjugalidade” e “parentalidade”. Conclusão O futuro do casamento é ao mesmo tempo o futuro do “ser pais”, na sua dualidade, paternal e maternal. Se queremos continuar a usar a palavra “pais” no plural, e não no singular, continuamos a cultura da instituição, da instituição do laço (dos laços não subjectivos). O casamento guia a aliança para o futuro, orientando-a para a geração (de geração em geração). O casamento é o cruzamento dos caminhos, de um caminho horizontal que liga os esposos, e de um caminho vertical que é a sucessão das gerações. Este cruzamento tem a forma de uma cruz. Mas a cruz é caminho de vida. Acabarei com uma bela imagem bíblica da felicidade, dois versos do salmo. Na Bíblia, esta imagem da felicidade (Salmo 128) “A tua esposa, uma videira frutuosa no coração da tua casa Os teus filhos como uma plantação de oliveiras a volta da mesa.” Desejo que encontrem ou construam uma palavra equivalente para descrever a felicidade da mãe...e da esposa!
Xavier la Croix
Universidade Católica de Lyon Comité Consultivo Nacional de Ética [1] “Aimer revient à désirer concevoir et enfanter” – Platon, in Le Banquet. [2] René Char, “Vers aphoristiques”, in La nuit talismanique (1978), Gallimard, Pléiade, 1983, p. 493 [3] Conférence sur le mariage, École supérieure de la magistrature, 1 avril 1994. [4] Jean Pierre Rosencsveig, Le Monde, 21.9.95. Dans le même sens, Irène Théry, « Ce demi-siècle identifie la famille à partir de l’enfant et non plus à partir du couple”, Le Démariage, Odile Jacob, 1993, p. 330. [5] Laurent Toulemon, “La place des enfants dans l´histoire des couples », Population, nº 49-6,1994. [6] Evelyne Sullerot, Le grand remue-ménage. La crise de la famille, Fayard, 1997. [7] “morcelée” – expression d’une mère divorcée [8] Références dans mon ouvrage, « De chair et paroles: fonder la famille », chapitre I, Paris, Bayard, 2007. [9] « Populations et sociétés », nº 220, janvier, 1988. [10] Jean Marc Ghitti, « Pour une éthique parentale », Paris, Cerf, 2005. [11] Cité par Josy Eisenberg, « A Bible ouverte », vol. II, « Et Dieu créa Eve », Albin Michel, 1979, p. 155 [12] Christiane Singer, « Eloge du mariage, de l’engagement et autres folies », Albin Michel, Paris, 2000, p. 120. [13] “Ou seja, colocar no mundo, é saber retirar-se, de tal forma que os descendentes sejam capazes de se retirar por sua vez, (...) Só os pais que sabem viver a sua conjugalidade e permanecer na sua própria geração não fazem carregar sobre os descendentes o peso da dívida da reciprocidade.” Philippe Julien, “Conjugalité et parentalité”. “Études”, Novembro 1998, p. 475 [14] Entrevista, Fevereiro 2003 [15] Henri Caffarel, « Les cahiers sur l’oraison », Paris, Novembro, 1967 [16] Henri Caffarel, ibid [17] Para mais desenvolvimentos: ver X Lacroix, “Passeurs de vie”, Paris, Bayard, 2004, chapitre VII
|