FICPM- Jornadas FICPM 2009

Criar raízes e dar asas

 

O título desta exposição pode surpreender. Para o redigir, baseei-me na sabedoria chinesa de onde extraio um provérbio que diz que os pais só podem dar duas coisas aos filhos: raízes e asas.

Passo a explicar. O tema deste encontro é: a Conjugalidade e a Parentalidade na actualidade: diversidades e evoluções. Na primeira conferência fez-se o ponto da situação e, na segunda, encararam-se as questões para o futuro. Três perguntas me foram colocadas:

-          Como a igreja vê esta evolução?

-          O que tem para nos dizer?

-          Que mensagem Deus quer transmitir através desta evolução?

As raízes representam a inserção na sociedade e as suas questões - a entrada na vida real a solidariedade a partilhar entre homens e mulheres desta época.

As asas representam o voar para um futuro em que todos terão de escrever vivendo a conjugalidade e a parentalidade.

Não podendo fazer uma exposição, que seria exaustiva, sobre o que a Igreja diz e como e revela a sua percepção sobre a vontade divina, parece-me necessário apontar alguns elementos que nos permitam entrar em diálogo com a nossa época, não para fazer eco do que ela diz, mas sim para descobrir, nesta altura, uma palavra que poderá fundamentar o que a Igreja deseja partilhar e como poderá direccionar para um horizonte, em que algo mais possa ser vivido. Vamos então escavar e elevar-nos. Apesar de parecer uma situação paradoxal, não é essa a essência do discurso bíblico?

Três tempos para marcar a nossa progressão:

1.     um novo contexto

2.     …para um discurso antigo...

3.     …a transmitir.

 

1.      Um novo contexto

As duas conferências anteriores descreveram o novo quadro no qual se colocam questões à volta da conjugalidade e parentalidade. Não abordarei outra vez este tema. Gostaria, somente, de dizer em algumas palavras que o contexto em que a Igreja é levada a exprimir-se sobre estes assuntos não é mais o mesmo de antigamente e que há, para nós, uma nova interrogação.

Num pequeno (pelo tamanho, não pelo conteúdo) livro recente, Roger-Pol Droit, filósofo, investigador no CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) e membro do Comité Consultor Nacional para as Ciências da Vida e da Saúde, escreve logo nas páginas iniciais: “As novas técnicas tornam possíveis situações até agora inimagináveis. Ameaçam mudar radicalmente a existência humana assim como os sistemas de parentalidade e filiação. Perguntamo-nos o que devemos encorajar, autorizar ou interditar. E em nome de quê”?[1]

Estas questões são as mesmas que foram colocadas num debate em França à volta da revisão da lei da bioética, debate para o qual o jornal La Croix construiu um excelente dossier. Ao longo das páginas deste dossier, explicitando o que está em jogo, é perceptível que o possível científico, segundo as autorizações que receberá para se concretizar, modificará profundamente as regras da conjugalidade e parentalidade.

Quero destacar só este apontamento do primeiro capítulo da investigação: se abrirmos estas novas possibilidades (reprodução assistida a mulheres solteiras; a pessoas homossexuais; gestação com recurso a outras pessoas), a assistência à reprodução mudaria de natureza. Não seria mais uma resposta à infertilidade dos casais, mas um meio de satisfazer o desejo de ter filhos e ao mesmo tempo uma ruptura antropológica[2].

Isso significa que o discurso eclesiástico está perante novas realidades e não pode mais contentar-se em repetir normas, embora sempre necessárias, sem as considerar. É preciso também ter um discurso compreensível para todos, isto é, que seja, acessível a toda a gente.

Hoje em dia o que é sussurrado a uma orelha pode muito rapidamente espalhar-se para todo o universo graças à – alguns diriam por causa da - Internet. Seguem dois exemplos. O primeiro: a recente polémica sobre o preservativo, sendo fácil perceber que ela foi orquestrada por “lobbies”, mas não podemos contentar-nos em denunciá-los. Teria sido necessário ter argumentos que não fossem ambivalentes.

Eis o que sublinha Joêl Ahajdtsè, um africano responsável por uma ONG do Togo: para nós estas palavras não foram confusas, pois já estamos nesta lógica... (eu comento: é porque para os outros não foi este o caso). Ele continua: certas pessoas... que receberam uma educação cristã vão tentar esmiuçar o que quis dizer o Papa. Isso apela a um discernimento... é certo que o Papa foi demasiado global nas suas palavras. Deveria ter sido mais exacto e distinguir os vários casos: os jovens, os casais e os que têm parceiros infectados. Agora nós é que temos que dar explicações sobre o que não foi dito[3].

É evidente, como já o afirmava Paulo VI, que é cada vez mais difícil ter um discurso universal, ou se faz de uma forma detalhada ou deparamo-nos com situações que tão bem conhecemos: cacofonia e incompreensão.

Outro exemplo: há alguns dias falava com uma jovem mulher, cristã, investigadora em biologia, que trabalha sobre as questões da reprodução. Para a ajudar a esclarecer a sua consciência, tinha-lhe oferecido em tempos, o texto de instrução “Dignitas personae”. Ela dizia-me: não é possível dizer não a tudo! Aí também foram precisas longas explicações para mostrar que o texto podia esconder um sim, e como está escrito no texto, um grande sim à vida humana (que) deve ser posto no centro da reflexão sobre a investigação biomédica[4].

Sendo assim, é preciso retomar todo o discurso com este centro para não desqualificar todo o trabalho que homens e mulheres se esforçaram em fazer em prol dos outros. Estamos perante novas questões que se encontram por vezes vestidas em roupas que já não estão à sua medida!

A novidade do contexto pode ser comentado sobre dois outros pontos:

a)      A que nos referimos quando dizemos novo a propósito do contexto? Não seria de encarar que houvesse um depois que iria substituir um antes, tornando este último obsoleto. O fenómeno, como todo o fenómeno societário e logo eclesiástico, é mais complexo. O novo em questão é pensado como estabelecido no antigo, criado por ele, e saído dele. Encontramos então, sempre alguns vestígios dele no novo. Falar de um novo contexto, é estar mais atento à sua evolução, integrando a sociedade ou a Igreja, desenvolvendo-se numa história. É então necessário não ocultar o que precedeu, de o conservar percebendo, ao mesmo tempo, os pontos de insistência que antigamente não o eram e que se manifestam agora. Nós não estamos nos ou…ou…, mas nos e…e...

b)      O segundo ponto foi bem evidenciado pelo que a Igreja viveu estes primeiros meses do ano 2009. De facto, quando se diz: A Igreja exprime-se sobre, pensamos imediatamente na instituição, na estrutura hierárquica... como se o Santo Espírito não pudesse usar outros canais... É fácil esquecer a História: grandes reformas foram feitas na Igreja, não porque o Papa e os bispos tomassem posições, mas sim porque laicos, padres, religiosos e religiosas intervinham. Se necessário é de citar um nome, lembro-me daquele que poderá ser o mais conhecido: Santo Francisco de Assis. Nós pudemos fazer a mesma experiência, aquando do levantamento da excomunhão, assim como no caso do Recife ou da viagem do Papa a África: a Igreja falou pela sua voz hierárquica mais alta, o Vaticano, o seu responsável, Bento XVI, etc., mas também por bispos, a título pessoal, padres, religiosos, pessoas laicas... Ao ler a imprensa, navegando na Internet, é palpável que o Espírito trabalhava de mil formas a consciência eclesiástica em diversos sentidos. Ou seja, a transmissão eclesiástica não se faz mais, só na vertical, é bom ter em conta o que poderemos chamar de transmissão horizontal.

Quando a pergunta é colocada: Como é que a Igreja vê esta evolução? Que tem para nos dizer? Um elemento de resposta seria: Você, como a vê? Como a recebe? O que pensa? Estar atento ao discurso eclesiástico, não é só ser o porta-voz de uma palavra que ressoa em outros lugares, é também fazê-la eco, onde estivermos, com o que somos, tendo em conta a sua própria história. Para a sua concretização, é importante que haja alguém ou uma instância que relembre o quadro, as regras, as normas, o aviso que convidará cada um a ter um discurso não só baseado no que ele pensa mas sim, no fim para o qual ele caminha... mas sem estar fechado num ideal impossível de atingir. Neste caminho, uma descoberta faz-se: o melhor não é forçosamente o mais difícil, mas sim o que permite progredir, de se aproximar do fim [5].

2.      ... para um discurso antigo...

Com efeito, quando os jovens, mergulhados nestes questionamentos, que são tanto seus como nossos, se preparam para o casamento, a Igreja que vós sois (cada um e em equipa) é convidada a formular o seu discurso. O que importa é não pretender responder a todas estas perguntas e não ter uma opinião definitiva e fechada sobre todas elas, quando possuímos, na maior parte das vezes, apenas alguns elementos de resposta. Interessa sim abrir com eles pistas de reflexão, de ir às origens de maneira a que possam encontrar o que procuram: o sentido da sua iniciativa. Ora, aí está, este discurso é antigo, não porque é repetido às gerações, mas porque tem raízes numa história, a da revelação que é, ao mesmo tempo, raízes e asas. Como pano de fundo, utilizarei a minha experiência pastoral nos encontros de noivos. Três afirmações podem ilustrar este discurso antigo.

2.1.Casamento, local da plena realização da sexualidade

Todos os que vivem um projecto de casamento, os que vivem em união de facto há anos, os que vivem, como quem diz, juntos “para ver se...”, como os que não vivem juntos (ainda existem), estão de acordo sobre um ponto: o casamento já não é necessário para viver a sua sexualidade mas mesmo assim permanece como um dos locais privilegiados da plena realização da sexualidade (digo um dos, pois existem outros tais como o celibato por escolha, o celibato consagrado...) 

Para eles, com efeito, a sexualidade é uma linguagem, e como toda a linguagem, o tempo, a descoberta do outro, a fidelidade do diálogo, a reciprocidade da troca, oferece possibilidades que o imediato exclui. Assim, como é evidente, não podemos começar a exprimirmo-nos estando certos que possuímos todo o vocabulário, toda a gramática, todos os idiomas... senão arriscamo-nos a nunca comunicar. Mas é preciso obrigarmo-nos a fazer exercícios de pronunciação, a ter um jogo de memória para guardar em si o aprendido, a fazer novos ensaios para testar o domínio de uma língua.

O casamento aparece-lhes como escola onde eles poderão descobrir as riquezas, as finuras, as subtilezas, as dificuldades...desta linguagem que é a sexualidade. Eles entendem que é no casamento que poderão viver a realização da sua sexualidade da mesma forma com que o dom de Deus fez a humanidade. A realização da sua própria sexualidade irá transformar a relação com o outro, no seio do casal mas também para além do casal. A realização da sexualidade do outro que se afirmará pelos confrontos, o apoio mútuo, o desenvolvimento comum. A realização da sexualidade que não se definirá, mais e unicamente, em termos de agressividade ou em termos de bens a apropriar ou em termos de dominação, mas em termos de dom.

Não se trata mais de esconder o talento adquirido mas de pôr junto o que um e outro têm reservado para os fazer frutificar no sentido de poder, ao regresso do mestre, prestar-lhe contas que o satisfaça – ele teve razão em ter confiança – e de participar da sua alegria – entra, dirá ele, no gozo do teu Senhor (S. Mateus 25, 1-30)

2.2  Obedecer à lei, mas que lei?

Tudo era mais simples quando se podia falar da lei. Ora actualmente já não é assim. Estes jovens estão em contacto com tantas leis que se cruzam obrigatoriamente, que não têm as mesmas exigências: lei dos países, lei da família, lei da religião (ou religiões), lei do grupo... leis escritas ou orais, que geram o comportamento e as relações, visando toda a segurança de um grupo humano específico. A lei da Igreja não pode mais impor-se como tal. Mesmo que todos concordem quanto à necessidade de um quadro, pedem que este quadro não interfira na sua vida privada.

Tal como este jovem casal, praticante, que participa em vários grupos de reflexão, muito respeitador de várias regras impostas pelo seu meio ou pela sua pertença religiosa. Em reunião explicava que acolhe todas as directivas da Igreja mas que chega a um ponto com o qual ele não concorda: a propósito da regulação dos nascimentos. Ele diz aceitar o que a Igreja pede quanto à obrigação dominical, ao modelo das liturgias..., mas no que se refere a este ponto em particular da sua vida privada, ele diz não poder ter a mesma atitude.

Para este casal é este ponto, para outro casal será um diferente e assim continuadamente. Uma lei para todos aparece como impossível. Vamos rejeitá-las ou fazê-las vergar? Ou iremos calar-nos e fechar os olhos?

 É nesse contexto que surge uma nova exigência que não é fácil de encarar: é necessário uma lei-quadro que se exprimirá de tal forma que serão os seus utilizadores que fixarão as balizas de aplicação para a sua vida (esclarecidos pela palavra de Deus). Estes, não sendo melhores ou piores, não procuram obrigatoriamente a facilidade ou o desinteresse, educar-se-ão, pouco a pouco, no sentido de serem um ser melhor, de terem uma vida cada vez melhor. Se não, arriscamo-nos a quebrar o seu dinamismo interior, ou de o afastar Deste que é a fonte da vida. Aquele que ao chamar os seus apóstolos não os escolheu iguais, mas sim respeitando as suas diferenças, lhes confiou uma única missão (como nos é indicado em S. Marcos 3, 13-19).

2.3  Casamento, encontro de Deus

No início de uma preparação, eles chegam impregnados de imagens de Deus, um Deus que o rosto de Jesus Cristo não revela mais, um Deus dissimulado por "a priori" e ignorâncias, vítima de julgamentos preconcebidos feitos por aqueles que deveriam anunciar a vida e a alegria.

A primeira preocupação do casal animador é de ouvir tudo isso, de aceitar, de sofrer com eles. Depois, a melhor via é o caminho de Emaús (S. Lucas 24, 13-35): através das Escrituras, permitir-lhes percorrer o caminho com alguém que ao mesmo tempo lhes falará, lhes aquecerá o coração, fazendo-o bater ao mesmo ritmo do Deus feito Homem.

A sua descoberta é grande quando já não encontram um Deus com um coração frio, com olhos secos, com mãos fechadas sobre a palha a joeirar (S. Lucas 3, 17), mas sim com um coração quente (Êxodo, 3, 7-9), com os olhos cheios de lágrimas frente a um povo que recusa a felicidade oferecida (S. Mateus 5, 3-2 e 23, 37-39), com as mãos abertas para receber todos os que venham até Ele, os letrados (S. João 3) e os pobres (S. Marcos 14, 3-9).

Esta reviravolta suscitará certamente uma tomada de consciência crítica: Porquê ter-lhes escondido isto? Porque é que não procurei eu mesmo isto, em vez de parar perante a indiferença?

No fim deste caminho, poderão eles também, encontrar, no que rejeitavam, os sinais precursores de um Deus que já fazia parte (das suas vidas). Os seus olhos abriram-se. Deus já não se encontra num túmulo frio, é sim um viajante na estrada dos Homens, estrada essa, onde poderão cruzar-se com Ele. Pensavam num morto mas encontraram um vivo que vem até eles.

Eu conhecia-te só de ouvir dizer, agora os meus olhos viram-te (Job, 42,5). Deus, eles entendem-no através do seu amor e reconhecem-no na reciprocidade do perdão. O outro revela-lhe as suas riquezas mas não condena as suas fraquezas, ama-os como são. Todo o amor abranja estas dimensões verticais e horizontais, que formam uma cruz, sinal que uma vida lhes é oferecida. Deus, eles vêem-no no futuro que está para vir, para além das convenções, dos princípios ou das normas, como dom da vida. Eles o sentirão dando-se um ao outro, dando um com o outro a luz a outros.

Deus não é mais um desconhecido. Tem o rosto do Cristo. Tem um corpo cujos membros são eles. O seu casamento não será simples passagem pela Igreja após o cartório, mas sim o momento de uma história, a do Corpo de Cristo. Ainda que seja necessário que este momento seja sentido de forma a ser vivido como tal. Quantas cerimónias deixam um sabor de amargura: há música, tapetes, flores... Mas o padre parece ter tanta pressa em que o sacramento seja um instante fugaz. Quando regressam para o baptizado do seu primeiro filho, será em bicos de pés, rapidamente com medo de incomodar homens que pareceram tão ocupados, tão preocupados... e nem sempre muito disponíveis.

O que se pode descobrir, seguindo a enunciação deste discurso antigo, é que, para muitos, o casamento é sacramento e um dom de Deus, ou, retomando algumas palavras de Nathalie Nabert: “Assim se pode ver o poder de Deus no vazio do Homem” [6]. É o que se chama viver o sacramento do matrimónio, ou mostrar o divino que está no homem no quotidiano dos dias. O espírito pode abrir os olhos sobre este infinito, quer os olhos dos animadores quer os dos noivos, e dar a conhecer que este discurso antigo é, de facto, ainda nos nossos dias, novo.

3.      ... a transmitir

Para este discurso antigo, com uma nova roupagem, é também preciso encontrar o meio de o transmitir. Para entrar neste trabalho de renovação da transmissão, o moralista protestante Olivier Abel, propõe alterar a nossa abordagem ao tempo, reatando com tradições culturais e espirituais que fazem jus à memória e à transcendência. Ele denuncia a ditadura do tudo já e do sempre mais, nas quais até as nossas Igrejas cristãs não escapam: há uma tendência a privilegiar o imediato do Ágape na salvação do presente em detrimento da memória do passado para abrir as portas do futuro[7].

É necessário que os antigos tragam os materiais, nos quais os próximos se irão basear e assim traçar o seu futuro. Nesta perspectiva, a herança comunicada pode ser recebida como um dom e não como uma dívida impossível de reembolsar.

Este dom convida-nos a descobrir que somos uma passagem (é através de nós que os valores reencontram outros), que estamos de passagem (nem tudo está parado através de nós)...vivendo como passadores (os que transmitem o futuro aos outros). É necessário deixar o enquadramento para aceder à criação. André Fossio, um teólogo jesuíta belga, define assim a pastoral de enquadramento (cito-o pois a sua definição é “falante” e remete-nos para o que muitas vezes encontramos nos grupos eclesiásticos): “uma pastoral de enquadramento que se desenvolve sob o paradigma do domínio, com um imaginário de empreendorismo, onde se pretende finalmente, a partir dos seus próprios projectos e força, moldar a Igreja e o mundo como desejaríamos que fosse”. Virando-lhe as costas, nós passaremos a uma pastoral de criação, ou seja, uma pastoral que acompanha o que está a nascer, ou seja, o outro.

Um jornalista perguntava a Jacques Attali: Transmitiu aos seus filhos convicções religiosas? A sua resposta foi surpreendente mas rica em conteúdo: Uma linda frase de Talmud diz que um judeu não o é nem pela sua mãe, nem pelo seu pai mas pelos seus filhos. Isso significa que um ser humano não é o que recebe mas sim o que ele transmite[8].

Isso remete-nos para a nossa própria experiência: nós não somos de tal obediência, não pertencemos a tal família espiritual, não dependemos de tal grupo humano, de tal escola... pelo que lá recebemos. Nós demonstraremos a nossa pertença por aquilo que transmitimos.

Ou seja, é inútil tentar viver preocupados em imitar bem os que nos antecederam em ver se seguimos bem as mesmas regras ou instruções...o importante é viver com o que nos foi legado. É na nossa maneira de viver que a nossa pertença poderá ser reconhecida.

Quando foi interrogado sobre a dificuldade sentida por pais quanto à transmissão dos valores, o psicólogo Albert Donval realçava no “La Croix”, de 27 de Novembro 2002: “Digo muitas vezes: os pais transmitem como transpiram, os filhos recebem como respiram, e continuava: transmite-se o implícito e o explícito, o positivo como o negativo, os valores como os contra-valores”.

Para viver esta passagem, uma primeira exigência se impõe: reconhecer a herança que nos é dada, aceitarmo-nos como herdeiros, ou seja, aceitar que não somos a fonte e ainda menos a sua origem. Existe alguém que antes de nós agiu, viveu, transformou e organizou a realidade, porque ele próprio a tinha recebido de outro. Finalmente se eu quiser apontar para uma origem do movimento pelo qual estamos a ser levados, viro-me para Deus...não só para a sua revelação através Jesus Cristo, mas também para tudo que preparou esta revelação.

Foi o que fizeram os nossos predecessores na fé, quando abriram o livro da revelação, a Bíblia, afirmando que Deus é o criador de tudo (eles não sabiam como, mas compreendiam o porquê). Eles afirmavam que tudo provém dele, no passado como no seu presente. Os escritos da criação eram instrumentos literários usados para transmitir estas origens na sua própria contemporaneidade. Entendiam ser herdeiros, encarregados de transmitir o que eles tinham recebido, daí os seus escritos: eles respiravam para transpirar Deus. A herança a receber, não são princípios a aplicar, é uma forma de ser que abrirá a outros, o desejo de ser.

Isso induz uma segunda exigência: ser credível. Pretender trabalhar a este nível vai exigir uma certa coerência. È credível apenas aquele que é tido como coerente, ou seja, aquele cujas palavras e actos correspondem! Com os limites inerentes a qualquer pessoa, o adulto esforça-se para corresponder àquele que o antecedeu na transmissão. Sabendo que a mensagem não se esgotou no antecessor e nas suas acções. E também, que ele filtrou o que pôde e o que quis desta mensagem, dependendo das circunstâncias e interpelações do momento. No mesmo caso, o progenitor ou educador sabe que o que é absorvido pelo jovem não é a totalidade do que ele gostaria de ter transmitido. Na introdução deste desfasamento e distância, instala-se um espaço de liberdade. Este espaço de liberdade permite ao transmissor interiorizar a mensagem e comunicá-la como ele sente que o deve fazer. E ao receptor, de se sentir reconhecido e acolhido como ele é. Não tenhamos medo de uma fragilização, será mais o caso de uma possível criatividade. Experimenta-se uma hospitalidade recíproca onde um e outro podem apreender a riqueza da mensagem ao seu nível, para senti-la com as suas vivências e descobri-la.

Não é comunicando com o outro que podemos perceber a riqueza da nossa reflexão ou a sua total incongruência!

A terceira exigência que se impõe é a gratuidade: o transmissor oferece, não impõe. Deve situar-se no registo do convite, para que o outro possa adquirir como seu (necessidade de interiorização) o projecto comum. Passa a ser um iniciador de vida. Permite ao outro, não estar preso a um regulamento, a um dogma. Estar preso aos...é necessário... ou aos... não podemos. Permite sentir-se a vontade para vir a ser..., sem o receio paralisante de não fazer bem, de não fazer como os seus pais e os seus mestres fizeram no passado. O outro pode então dedicar-se e trabalhar como ele é, contudo sem fazer o que ele quer. Por sua vez, ele sabe que é herdeiro. Está ligado a um futuro confiante que ele sabe ultrapassar. È por isso que é necessário ter uma atitude de abandono interior: nós somos convidados a dar o que nos parece ser o melhor, depois é da responsabilidade dos interlocutores de se entregar. Um diálogo inicia-se, contribuindo para o enriquecimento das intuições originais. Correndo o risco de um possível conservadorismo: sempre fizemos assim, substitui-se por um renovamento: Que empreender?

Para concluir, confronta-se com a questão da transmissão, isto é, acolher um passado que dá sentido ao nosso presente, presente esse sempre efémero e virado para o futuro. É na fidelidade para com o passado que o futuro pode ser criador... assim, transmitir é arriscar-se a inovar. Pode resumir-se a uma fórmula que se refere aos que dão e aos que recebem. De facto, os segundos recebem para um dia dar, estando atentos às interrogações do seu tempo: ser herdeiros para vir a ser mestres. É na medida que uns e outros serão verdadeiros herdeiros que serão, por sua vez, mestres cujos discípulos testemunharão da herança recebida... Assim se prolongará uma história, a de Deus falando aos homens, a dos homens ouvindo Deus, a de um diálogo onde a Palavra é fonte de vida pois dela nasce o Homem. Será viver a Encarnação: Deus faz-se homem e o Homem cria-se recebendo de uns e através de outros.

Parece-me que com esta iniciativa a Igreja (a instituição assim como cada um de nós) acolhe as evoluções actuais e transmite uma mensagem aberta de esperança: Deus é um amor que nos ultrapassa e faz-nos avançar, mesmo, se por vezes, os seus caminhos nos surpreendem. Como escrevia o padre Jacques Turck, num contexto bem diferente, “O Santo Espírito semeia em nós milhares de ideias. Deixa-nos o cuidado de as transformar em realidade... quase todas são concretizáveis[9].

Obrigado pela vossa atenção.

 

Jean-Luc Ragonneau, SJ


 

[1] Roger-Pol Droit, L’éthique expliquée à tout le monde, pp. 8-9 [éd. Seuil, 8€]

[2] L’ABC de la bioéthique, 1/15 Quinze ans de lois sur la bioéthique, La Croix, 9 mars 2009

[3] Préservatif : ce que le pape aurait pu préciser, propos recueillis par M. du Souich, Croire aujourd’hui, n° 256 1 mai 2009

[4] Congrégation pour la doctrine de la Foi, Dignitas personae, n. 1

[5] N’est-ce pas ce que l’un ou l’autre évêque a exprimé à propos du préservatif. Par exemple, Mgr di Falco : si on n’arrive pas à vivre la situation telle qu’il [le pape] la propose on ne doit être ni criminel, ni suicidaire, et on doit utiliser le préservatif [RTL, 18 mars 2009]

[6] Nathalie Nabert, « Les dons du Saint Esprit, 7 ». La crainte de Dieu, La Croix, 4 avril 2009

[7] Olivier Abel, « Transmettre avec confiance le patrimoine spirituel », La Croix, 6 février 2007, propos recueillis par Agnès Auschitzka

[8] Jacques Attali, « Je ne peux pas comprendre le monde sans une métaphysique », Le Monde des Religions, n° 22 mars-avril 2007, p. 79

[9] Jacques Turck, La Croix, 6 abril 2009

 

 

 

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