A Preparação
para o Matrimónio na Palavra da Igreja
Sua Eminência o Senhor D. José Policarpo,
Cardeal Patriarca de Lisboa
Introdução
1. O título
da Conferência que me foi pedida sugere que
apresente, em síntese, as actuais orientações do
Magistério da Igreja para a preparação para o
matrimónio. Trata-se de um Magistério abundante,
onde se explicita a doutrina católica sobre o
sacramento do matrimónio e sobre a família enquanto
experiência base da Igreja comunhão, a “Igreja
doméstica”, e onde se arriscam mesmo sugestões
operacionais de acção pastoral: desde a Gaudium et
Spes, do Concílio Vaticano II, à Familiaris
Consortio, Exortação Apostólica do Sínodo sobre a
Família, e à Evangelium Vitae, de João Paulo II. Por
seu lado, o documento do Conselho Pontifício para a
Família, de 1996, intitulado “Preparação para o
Sacramento do Matrimónio”, que pretende ajudar a
traduzir, em dinamismos de novidade pastoral, a
doutrina daqueles documentos, interpelando as
Conferências Episcopais, os Bispos e as Dioceses, as
paróquias, as estruturas de pastoral evangelizadora,
sobretudo da juventude, assim como os diversos
movimentos que se têm empenhado na pastoral de
preparação para o matrimónio. Aliás, o contributo
destes diversos movimentos na elaboração do
documento ressalta à vista.
A ideia de me limitar a fazer uma síntese
desses ensinamentos não me entusiasmou: seria
redizer o que já está dito, em documentos
disponíveis a todos. Ressalta a convicção de que a
preparação para o matrimónio é uma urgência
pastoral, com a determinação e a criatividade
exigidas pelas profundas alterações culturais da
sociedade. Mas, se depois de meditarmos essa palavra
lúcida da Igreja, olharmos para a realidade,
damo-nos conta das dificuldades em encontrar formas
inovadoras de pastoral, que criem um novo dinamismo
transformador. Saltou-me à memória a afirmação de um
pensador contemporâneo: “quando eu nasci já tinha
sido dito tudo sobre a salvação do mundo; só faltava
salvar o mundo”.
O Cardeal Walter Kasper, em precioso livro,
escrito por ocasião do seu próprio jubileu
sacerdotal, diz, referindo-se à profunda mutação
cultural da Europa, pátria secular da implantação do
cristianismo: “Nesta nova situação, o cristianismo
assume, hoje, num sentido que precisa de ser bem
compreendido, uma nova fisionomia histórica. Estamos
apenas no início desta nova abertura. Claro que a
Igreja é sempre a mesma em todos os séculos, mas
também é sempre um caminho para descobrir, de
maneira nova, a novidade do Evangelho. O Concílio
Vaticano II indicou, num tempo concreto, os caminhos
para o fazer, e pode ser uma bússola fiável para o
seu caminho no século XXI.
Infelizmente, estamos ainda muito longe de termos
tomado plenamente consciência das proporções desta
mudança, dos desafios a enfrentar e da necessária
orientação missionária da pastoral nos nossos
países. A força da inércia, uma mentalidade de beato
possuidor e o medo do que é novo, são muito grandes.
Muitos querem continuar a fazer, o melhor que podem,
aquilo que sempre se fez, mas a longo prazo isso não
será possível”.
Ao lançar este desafio, o Cardeal Kasper refere o
dinamismo que já Paulo VI lançou na Evangelii
Nuntiandi e João Paulo II, quando fala de uma
renovada e nova evangelização. Mas não tinha sido já
esse o desafio lançado por João XXIII ao convocar o
Concílio? Sensível à profunda mutação cultural da
sociedade, o Concílio desafia a Igreja a tomar
consciência do seu mistério para reinventar os
caminhos da sua missão na sociedade que mudou.
Assim tracei como objectivo desta
Conferência, à luz da clara doutrina da Igreja,
sonhar caminhos novos para a evangelização, no
quadro da qual se deve garantir a preparação para o
matrimónio. O tema fica, assim, mais próximo do
desafio da nova evangelização, do que da análise de
verdades e caminhos conhecidos, mas que não podemos
correr o risco, denunciado por Walter Kasper, de
teimar fazer, o melhor possível, o que sempre se
fez. “Vinho novo em odres novos” (Mc, 2,22).
O desafio
de uma nova evangelização
2. A
expressão, querida a João Paulo II, retoma a
intuição de João XXIII, ao convocar o Concílio, e de
Paulo VI na Evangelii Nuntiandi. Aos Bispos da
América Latina, ao celebrar os 500 anos da primeira
evangelização, perante as profundas alterações da
sociedade, que se repercutem na afirmação da Igreja
nesse continente, João Paulo II diz: “A comemoração
de meio milénio de evangelização encontrará o seu
significado pleno se for um compromisso vosso como
Bispos, em conjunto com o vosso presbitério e com os
vossos fiéis. Um compromisso de quê? Não certamente
de uma re-evangelização, mas sim de uma nova
evangelização”.
Qual era,
para João Paulo II, a diferença entre
re-evangelização e nova evangelização? É claro que
não se trata de repetir o passado. A mensagem é a
mesma de sempre, mas é outra a sociedade e a
cultura. Como diz Walter Kasper, não basta continuar
a fazer, o melhor possível, o que sempre se fez. É
preciso encontrar caminhos novos. Talvez, porque
alguém fez a pergunta, o Santo Padre, numa outra
referência à “nova evangelização”, acrescenta:
“evangelização, nova no seu ardor, nos seus métodos
e nas suas expressões”. O tema inspira a própria
Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”, sobre a
Igreja no mundo contemporâneo, quando fala do dever
de ler os “sinais dos tempos”, encontrando na
realidade do mundo contemporâneo sinais que possam
ser portas abertas à mensagem cristã.
Procuraremos, a partir de agora, considerar
a problemática da preparação para o matrimónio, na
perspectiva de uma nova evangelização do amor. Fiéis
ao desafio de João Paulo II, não fugiremos à
realidade, olhando-a com esperança; veremos em que
possa consistir esse “novo ardor” na proclamação da
verdade cristã e que métodos adoptar.
Olhar a
realidade com esperança
3. A família é um micro-cosmos onde incidem
e se repercutem todas as grandes mudanças da
sociedade, sofrendo, ela própria, hoje, uma profunda
mutação cultural e por isso só é possível
evangelizar o amor, procurando reagir à mutação
cultural, evangelizando a cultura e a sociedade.
Trata-se de incutir, sobretudo nas crianças e nos
jovens, critérios e perspectivas de vida, que não
sejam só os da cultura ambiente, mas exprimam a
beleza da novidade da vida cristã.
Limitar-me-ei a apontar aqueles traços da
mutação cultural das nossas sociedades que mais se
repercutem no matrimónio e na família.
Antes de
mais, a tendência da cultura contemporânea que
favorece o ateísmo.
Para muitos Deus não existe ou é como se não
existisse, porque não interfere na nossa vida.
Relativizou-se uma dimensão estruturante do
judeo-cristianismo, a certeza de que Deus age na
nossa vida e na nossa história. Não há aliança
possível com um Deus inexistente ou inoperante. E
mesmo para aqueles que ainda não “mataram” Deus, a
sua fé não é uma aliança de amor e de confiança, que
envolve toda a existência e dá sentido a todas as
nossas experiências e opções.
Esquecido Deus, o homem torna-se o centro da
vida e da história. A vida será o que ele for capaz
de fazer; a sua inteligência é a fonte exclusiva da
verdade; a sua liberdade torna-se um absoluto. Com a
exaltação do indivíduo, obscurece-se a dimensão
comunitária. A verdade deixa de ser a verdade de uma
comunidade que faz tradição, e a liberdade
individual deixa de assumir o desafio da
responsabilidade comunitária pelos outros. Neste
quadro, relativiza-se facilmente a exigência ética
como luz inspiradora dos comportamentos, esbatem-se
as fronteiras entre o bem e o mal. Os princípios
éticos que se herdaram do passado e se receberam
duma comunidade mais alargada, são considerados
imposições limitativas da liberdade individual.
Quando
Deus deixa de ser protagonista da nossa história,
inter-agindo connosco, relativizam-se conceitos como
o de criação e de salvação. Quando o homem deixa de
se considerar criatura de Deus, e o universo um dom
do mesmo Criador, perde-se a noção do desígnio
amoroso gravado no nosso coração, e cuja realização
será a mais bela aventura da nossa liberdade. Não há
lei natural gravada no coração humano. A natureza e
a sua lei natural não são
um absoluto e o homem, que experimentou alterá-las,
começa a acreditar que a poderá mudá-las
radicalmente. Estamos a viver um momento de ousadia
quando se quer decidir que, afinal, o casamento já
não é, necessariamente, a união de um homem e de uma
mulher.
Esquecendo Deus, perdeu-se a perspectiva de
eternidade. O “para sempre”, “para a eternidade”
desaparece do vocabulário. A própria sociedade de
consumo consagrou o princípio do “usa e deita fora”.
Não há valores perenes nem escolhas definitivas.
Tudo é transitório, ao sabor do momento e das
escolhas de cada um.
Consequência desta dificuldade em assumir,
com coragem e fidelidade, a dimensão perene de
compromissos fundamentais, está a crescente diluição
da dimensão institucional do casamento, baseada num
contrato celebrado entre o homem e a mulher,
constituindo, assim, a instituição familiar, a qual
exige estabilidade e perenidade. O casamento começa
a ser apresentado como um encontro de amor entre
duas pessoas, que se acaba quando se esgota o amor.
4. Todos estes sintomas
da mutação cultural se repercutem no casamento.
Estão na origem de uma visão da felicidade que se
deseja, marcada pelo hedonismo. Esqueceu-se
progressivamente o desafio cristão da felicidade,
baseada na generosidade do dom: “é no dar que se
recebe”.
“Chamo hedonismo a um
conceito de vida e de felicidade a conseguir
imediatamente, fruindo tudo o que a natureza nos
oferece. O que é natural é bom e legítimo, excluindo
a dimensão sobrenatural de reconstrução do homem. O
modelo de vida e de felicidade que as sabedorias
profanas veiculam é hedonista, consumista, exclui o
sentido do sofrimento e relativiza a perenidade da
felicidade a construir na fidelidade. A avidez, a
ganância, o materialismo, a relativização das
escolhas de vida que se fizeram, são consequência
dessa perspectiva. Este modelo de felicidade é
insaciável, exige-se sempre mais e culpam-se
facilmente os outros por não o conseguirmos. A
felicidade a construir, à imagem do esforço e
persistência do atleta que corre no estádio, quase
desapareceu. São os outros que têm obrigação de
garantir que eu seja feliz. Percebemos melhor o
Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que têm um
coração de pobre”, e o Evangelho anunciado aos
pobres, devido à sua maior disponibilidade para
acolher a surpresa de Deus.
Não é fácil anunciar o Evangelho a
pessoas que têm esta concepção da felicidade. É o
escândalo da Cruz, de que falava Paulo. A mensagem
cristã, com a sua exigência renovadora, é
considerada desadaptada para o homem, ele que se
considera capaz de resolver todas as interrogações
da sua existência e de construir a sua própria
felicidade”.
A nova evangelização exige um novo
ardor
5. Em que consiste e como se exprime
este “novo ardor”? João Paulo II deixou-nos o
testemunho da sua própria vida. Nele, esse ardor era
uma paixão por Jesus Cristo e a evangelização era
sempre o anúncio e manifestação do amor de Jesus
Cristo. Recordemos as suas palavras logo na sua
primeira Encíclica: “Jesus Cristo é o centro do
cosmos e da história. Para Ele se dirigem o meu
pensamento e o meu coração nesta hora solene da
história (…). A única orientação do Espírito, a
única direcção da inteligência, da vontade e do
coração para nós é esta: na direcção de Cristo,
redentor do homem, na direcção de Cristo redentor do
mundo. Para Ele queremos olhar, porque só n’Ele,
Filho de Deus está a salvação”[5].
Como não recordar o ardor com que o Concílio
Ecuménico Vaticano II confessou que Cristo é o fim
da história humana, o ponto para onde tendem os
desejos da história e da civilização, o centro do
género humano, a alegria de todos os corações e a
plenitude de todas as suas aspirações”[6].
Aos jovens chamou João Paulo II os
“aliados naturais de Jesus Cristo”. Com Cristo, eles
farão a diferença. Na sua Carta Apostólica aos
Jovens no Ano Internacional da Juventude,
referindo-se à questão maior que os interpela nessa
idade, a vocação esponsal, o Papa afirma: “Por isso,
peço-vos que não interrompais o diálogo com Cristo
nesta fase extremamente importante da vossa
juventude; e peço-vos mesmo que vos empenheis ainda
mais nesse diálogo. Quando Cristo diz «segue-Me», o
seu chamamento pode significar: «chamo-te para um
outro amor ainda»; no entanto, muito frequentemente
significa: «segue-Me» a mim que sou o Esposo da
Igreja – da minha esposa…; vem, torna-te também tu
esposo da tua esposa…, torna-te também tu a esposa
do teu esposo. Tornai-vos ambos participantes
daquele mistério, daquele sacramento, do qual o
autor da Carta aos Efésios diz que é grande: grande
«em relação a Cristo e à Igreja»”. E mais à frente:
“Desejaria que acreditásseis e vos convencêsseis de
que este vosso «grande mistério» humano tem o seu
princípio em Deus que é o Criador, está radicado em
Cristo Redentor, o qual, como o esposo, «se entregou
a si mesmo» e ensina a todos os esposos e a todas as
esposas a «entregarem-se» um ao outro, segundo a
plena medida da dignidade pessoal de cada um e de
cada uma. Cristo ensina-nos o amor esponsal”.
Esta descoberta de Jesus
Cristo é pessoal e acontece ao ritmo do Espírito e
do coração de cada um. Mas supõe uma catequese
concebida como caminhada de descoberta da pessoa de
Jesus, em que a doutrina é confirmada pelo calor do
testemunho, de pais, catequistas, sacerdotes. Temos
de nos afastar de uma catequese concebida como
aprendizagem de uma doutrina, dando lugar à
catequese como caminhada de descoberta da vida. Essa
é a pedagogia catecumenal. Para todos, mas sobretudo
para os jovens, são importantes as autênticas
testemunhas da fé.
Esse “novo ardor”
incendeia-se na celebração da Eucaristia, na
adoração, na experiência missionária, em toda a
experiência de amor generoso. A possibilidade de
viver, hoje, o matrimónio cristão, sacramento de
graça, descobre-se em toda esta caminhada de
descoberta de Jesus Cristo, e não apenas no contexto
de uma formação específica. Esses jovens, tocados
por esse ardor, no momento próprio descobrem que
Cristo está no centro do seu amor e que este se
torna expressão do amor a Jesus Cristo. Sem essa
descoberta apaixonada, as características teológicas
e morais do casamento religioso são vistas como
exigências da Igreja, que não resistirão às
dificuldades e ao confronto com a cultura ambiente.
A nova evangelização tem de ser nova
nas suas expressões
6. A que se refere João Paulo II?
Certamente ao amor testemunhal, manifestado na
comunicação da fé. No caso concreto dos jovens,
etapa da vida em que se pode descobrir o sentido
profundo do amor humano, maturando uma vocação de
matrimónio, é importante que nessa caminhada se
exprimam dimensões constitutivas
da identidade
cristã, que inspirando toda a vida, dão sentido à
escolha do caminho do matrimónio.
* A natureza e a graça. O homem foi
criado com potencialidades que lhe permitem chegar à
vida, na comunhão de amor. Entre essas
potencialidades está a complementaridade do homem e
da mulher, criados à imagem de Deus, marcados pelo
desejo de serem um só no amor. É certo que o pecado
enfraqueceu essas potencialidades da natureza, mas
não as anulou. A graça, ou seja, a força do Espírito
de Jesus ressuscitado, não propõe uma perfeição
contra a natureza, mas a plena realização das suas
capacidades. A evangelização deve sublinhar tanto a
beleza do ser humano, como a necessidade da força do
Espírito para ser plenamente humano.
No matrimónio, como
vocação à santidade, na perfeição do amor,
cruzam-se, como em nenhuma outra experiência humana,
a natureza e a graça. Não se pode valorizar o
matrimónio, diminuindo a natureza. A evangelização
deve mostrar aos jovens a beleza da sua humanidade,
ensiná-los a acolhê-la como um dom e uma
responsabilidade. Exaltar a beleza do amor conjugal,
rebaixando o que é natural, só pode levar ao
abandono da perspectiva da graça. Com a acção do
Espírito, Deus só quer que o homem e a mulher sejam
plenamente humanos. A graça da redenção plenifica a
criação; ela é uma segunda criação.
* O ritmo sacramental. É impossível
mergulhar na profundidade do sacramento do
matrimónio, sem captar o ritmo sacramental da graça,
em que uma realidade humana é tornada, por Jesus
Cristo, sinal da vida nova, realizando, além da sua
significação natural, a surpresa da graça. Ora, no
matrimónio a realidade humana que, guardando toda a
sua significação natural, é tornada sinal da
comunhão com Jesus Cristo, é a própria união dos
esposos na totalidade do ser, corpo e espírito. A
união de amor torna-se sinal do amor de Jesus Cristo
e da nova comunhão com Ele. Sem este realismo
esponsal do sinal sacramental, a graça própria do
sacramento do matrimónio torna-se algo de desligado
do realismo da união conjugal e deixa de ser a sua
força transformadora. Isto exige que na formação
cristã dos jovens, na sua caminhada de descoberta da
vida, se faça uma teologia do corpo e se dê uma
visão positiva da sexualidade. Numa cultura de
pansexualismo, em que a exigência ética parece ter
desaparecido da expressão sexual, a Igreja não pode
cair na visão oposta de uma visão negativa da
sexualidade, como se esta só encontrasse sentido na
dimensão religiosa do casamento. A convivência de
pessoas de sexo diferente é sempre carregada de um
dinamismo positivo; é uma busca da comunhão de amor.
Só o egoísmo e auto-procura matam a dimensão
positiva da sexualidade. No sacramento do
matrimónio, a Igreja convida os homens e as mulheres
que desejam unir-se, a fazerem-no com a plenitude da
beleza e do amor que desejam. E isso é possível no
amor de Jesus Cristo.
* O amor experimentado como dom de
ternura. Descobrir o dinamismo do amor não é
exclusivo de quem se prepara para o matrimónio; faz
parte da abertura à vida vivida com Cristo. A
experiência cristã de que a pessoa só se sente
amada, isto é, feliz, quando se deu e entregou na
busca da felicidade do outro, é essencial na
preparação para o matrimónio. A atracção e a
complementaridade dos sexos exprime-se numa força
instintiva que, sem a generosidade do dom, pode
facilmente transformar-se em busca egoísta de si
próprio. E a generosidade do dom aplica-se a todas
as dimensões da vida e não apenas à intimidade
sexual. É esta que é chamada a integrar-se na
harmonia de uma vida vivida com a generosidade do
dom. Não tem sentido para a harmonia que a
felicidade supõe procurar ter a generosidade da
vida, dada e oferecida em todas as suas expressões,
e ser egocentrista e egoísta na intimidade sexual
dos esposos.
É esta gratuidade do dom
que dá ao amor a beleza envolvente da ternura. Esta
não é, sobretudo, fruição, mas contemplação do
outro, na alegria de renascerem juntos, para o amor.
Na Sagrada Escritura, a ternura é um dos principais
atributos do amor de Deus. Nela sente-se como Deus é
bom e nos ama, a ternura anuncia a bondade e a
misericórdia, faz-nos sentir que é o sermos amados
que nos salva.
* A dimensão eterna do amor. Para
descobrir esta dimensão é preciso experimentar o
amor de Jesus Cristo por nós. Só o amor de Deus pelo
seu povo, o amor de Cristo pela Igreja, que Ele ama
como uma esposa, tem a marca da eternidade. Só eles
são totalmente fiéis. Só no amor de Jesus Cristo os
esposos cristãos podem sentir que o seu amor é para
sempre, é para a eternidade. A fidelidade no
matrimónio não é, apenas, fidelidade dos esposos um
ao outro, mas porque sentem no seu amor esponsal a
ternura de Jesus Cristo, eles são chamados a serem,
no seu amor, fiéis como Ele é fiel.
Este é um dos aspectos
em que a graça realiza a natureza, pois o anseio de
eternidade está gravado na capacidade natural do
homem e da mulher se amarem para serem um só. Esta é
uma qualidade exigente do amor conjugal. Na vitória
sobre as dificuldades e na luta contra o espírito do
mundo, os esposos devem ser força um para o outro.
Quantas vezes são chamados a serem, um para o outro,
ministros do perdão e da consolação, com a força da
Igreja, o Povo que Cristo ama com fidelidade
esponsal e onde eles encontram o dom do perdão, a
força para a luta, o calor de uma comunidade que
caminha.
7. Todas estas dimensões
da novidade cristã em que somos introduzidos pela
iniciação cristã, abrem no coração e na inteligência
o horizonte onde tem sentido uma vocação para o
matrimónio, sobretudo se elas forem propostas com a
força do testemunho vivido, com o ardor de uma
paixão por Jesus Cristo.
Os métodos adaptados à nova
evangelização
8. João Paulo II diz que
a nova evangelização deve ser nova nos métodos. No
âmbito concreto da preparação para o matrimónio,
arrisco sugerir alguns critérios que podem ser
expressões de uma metodologia, isto é, da descoberta
do melhor caminho para a acção pastoral.
* O acompanhamento pessoal. Estamos
conscientes de que entre a multidão de jovens que
pedem o casamento religioso, só uma minoria desejam
seguir este itinerário de fazer do matrimónio o
caminho e a expressão da santidade cristã. A Igreja
não pode recusar, de forma simplista, o casamento
religioso entre baptizados, o único que ela
considera válido. O próprio João Paulo II, na
Familiaris Consortio, depois de expor toda a
exigência da preparação para o matrimónio, remata
assim: “Muito embora o carácter de necessidade e de
obrigatoriedade da preparação imediata não seja de
menosprezar – o que aconteceria se se concedesse
facilmente a dispensa – tal preparação, porém, deve
ser sempre proposta e efectuada de modo que a sua
eventual omissão não seja impedimento à celebração
do matrimónio”.
A todos os que se candidatam à celebração do
sacramento do matrimónio, devemos proporcionar a
melhor preparação imediata que for possível. Mas
estejamos particularmente atentos àqueles noivos
que, devido à sua formação cristã, estão preparados
para viver a beleza do seu amor, unido ao amor de
Cristo pela Igreja. São esses que encerram a
promessa de serem mais uma família cristã,
comunidade de amor e de vida, no seio da grande
comunidade que é a Igreja. E cada família cristã é
mais uma pedra sólida na construção da Igreja.
Acompanhemo-los pessoalmente, sem regatear o nosso
tempo. Que eles sintam a nossa alegria e a nossa
esperança no seu amor.
Ajudemos os jovens cristãos a escolherem
noivos ou noivas que possam fazer com eles esta
caminhada. Expressões como “ele(a) não se importa,
respeita, não se opõe”, não chegam. As núpcias
cristas supõem sempre uma intimidade e uma
cumplicidade com Jesus Cristo, que só é plena se for
do casal.
Isto supõe um acompanhamento pastoral em que
todos, padres e leigos, se assumem como sacramentos
de Cristo, Bom Pastor, que reconhece as suas ovelhas
pelo nome. Há aqui um papel imprescindível dos pais,
mas também de catequistas, sacerdotes, casais
cristãos. Não hesitemos em sacrificar, em nome deste
acompanhamento pessoal, as muitas reuniões
organizativas em que gastamos o nosso tempo.
*
Catequese juvenil e preparação para o matrimónio. A
pastoral dos jovens visa a iniciação cristã em toda
a sua abrangência. Mas porque não organizar ciclos
dessa caminhada catequética centrados na dimensão
esponsal da vida cristã? Uma preparação remota para
o matrimónio, já desde a adolescência, oferece o
horizonte de totalidade da vocação cristã. Nem
sequer impede uma pastoral específica para a vocação
de particular consagração. Uma vocação de virgindade
consagrada só é possível no quadro da descoberta da
realização plena das próprias capacidades de amor em
união com Jesus Cristo. O ideal de pureza e de
castidade como preparação para o amor vivido em
união com Cristo é o pano de fundo de toda a vocação
cristã.
* A
celebração do sacramento da Confirmação. Sacramento
da iniciação cristã, tem na sua graça própria, o dom
do Espírito Santo, uma dimensão decisiva para a
preparação para o matrimónio. Na sua preparação e
celebração, esta dimensão deveria estar sempre
presente.
* A festa
das núpcias. Houve umas núpcias em Caná e Jesus
estava lá (cf. Jo. 2,1-11). Naqueles casamentos
promissores de que falei atrás, façamos uma festa
das núpcias cristãs, em que participa a Igreja. O
amor desses esposos pode ser um sinal e um anúncio
para todos os outros jovens. Normalmente, a Liturgia
do Matrimónio tem pouco esse aspecto de “festa das
núpcias”. É que a Mãe de Jesus continua a estar lá a
dizer “fazei tudo o que Ele vos disser” e Jesus
continuará a transformar a água em vinho, a
realidade humana do amor nesse anúncio da sua
presença e do seu Reino no meio deste mundo, que
parece tão enlouquecido na maneira de olhar o
casamento e o amor.
†
JOSÉ, Cardeal-Patriarca