A preparação para o matrimónio: que caminho de Fé a percorrer em conjunto?

Anabela e Domingos Bento, casal responsável da diocese de Portalegre - Castelo Branco

 

1-Introdução

Objectivo

Escrever uma comunicação para a FICPM é sempre um desafio para um casal cristão, que assumidamente se apresenta como responsável por uma equipa diocesana discreta, participativa, assídua, empenhada e com algumas perspectivas de mudanças sustentadas. 

A metodologia seguida alicerça-se na dinâmica seguida no movimento CPM: o casal, em revisão de vida, consolidando a sua experiência de família nos documentos da Igreja, procura apresentar com base no seu testemunho de vida um tema para outros casais. Sem querermos ser pretensiosos, colocaremos algumas interrogações para as quais, pensamos, ainda se não encontraram respostas eficazes, formulando algumas propostas para o futuro, numa lógica de simplicidade cristã em que o contributo de muitos pode ser um caminho renovado para percorrer.

Assim, as questões, os testemunhos vividos, os enquadramentos que constituímos em linguagem pouco erudita em termos doutrinais, mas demandando a verdade vivida em comunidade e na família, leva-nos a destacar que já não basta uma preparação para o matrimónio, mas uma preparação no matrimónio. Naturalmente que as nossa reflexões respeitam a tradição da Igreja, a sua doutrina, mas procuram adaptá-las aos sinais dos nossos tempos, de molde a ser acessível às famílias comuns.


 

2- Um percurso CPM colateral a um percurso de vida

Nós, como cada um de vós, temos a nossa história específica. Ficámos noivos após um certo período de namoro, antecedido de outro em que convivemos com base numa amizade que se foi transmudando num amor único e irrepetível.

Enquanto namorados, frequentámos grupos de reflexão cristãos, criados no âmbito da Pastoral Universitária, que nos instruía e ajudava a uma maturidade na fé, mas simultaneamente reforçava o nosso sentido critico e de debate perante novas opiniões.

Frequentámos o CPM em Coimbra, há cerca de 31 anos, sem sequer sabermos quando casaríamos. Achámos importante reflectir atempadamente sobre a nossa relação e prepararmo-nos para as responsabilidades, sem pressões de tempo ou outras, com a ajuda de casais experientes.

Queríamos partilhar a nossa vida, coerentemente com a nossa fé, pelo que celebrámos o nosso matrimónio enquanto estudantes universitários, sem muitos meios de vida, com a certeza que Deus nos concedia para querermos partilhar a nossa vida permanentemente.

A construção da comunidade de amor começou por ser equacionada por:

eu + tu =  Nós

Não obstante acreditarmos que o Nós que formávamos era essencialmente aglutinado pelo Amor, fomos começando a consolidar esta perspectiva dual através de uma interacção forte, oculta, mas essencial, que consolidava o núcleo da família que criámos

NÓS = eu + tu + Ele

A comunidade de amor formada, foi alargada com a chegada dos nossos filhos. As dificuldades inerentes aos tempos de crise em que vivemos o início do nosso Casamento, contribuiu (e ainda contribui) para marcar a nossa união pois determinou opções de fundo, de que nunca nos arrependemos.

Como éramos estudantes universitários, instalados numa casa modesta, aprendemos a partilhar, face aos escassos recursos económicos, todos as dificuldades da gestão quotidiana, mas também a hierarquizar prioridades, não nos impedindo, contudo, de saborear plenamente a felicidade de estarmos juntos.

Sentimos que Deus, ao chamar-nos ao Matrimónio, a essa intima comunhão de vida e amor, nos confiou também a missão de anunciar esta verdade de ser família. Viver na integridade, esta verdade, é maravilhoso, mas nem sempre foi fácil enfrentar as dificuldades e desafios.

Como refere o Conselho Pontifício para a Família no tema “A Família, destinatária e agente da nova evangelização”, no âmbito das Catequeses Preparatórias para o IV Encontro Mundial da Famílias, a família cristã faz-se comunidade evangelizadora na medida em que acolhe o Evangelho e o amadurece na fé. Dentro pois, de uma família consciente desta missão, todos os membros que evangelizam, são evangelizados.

O sacramento sempre presente

Percebemos, desde logo, que o Matrimónio era um sacramento que nos acompanhava, dia a dia, no nosso projecto de vida. Partimos para o Alentejo, onde criámos a nossa família, a fizemos crescer, progressiva e pacientemente, sempre com o cuidado de cuidar da sua educação cristã.

Inspirado no modelo CPM, apoiámos o Pároco na preparação dos noivos, ainda antes desse Movimento estar organizado na nossa Diocese.

Sentíamos a presença do Senhor nas nossas vidas, nas alegrias e tristezas, nas escolhas decisivas, nos acontecimentos marcantes. Mesmo nas doenças recíprocas, ou nos falecimento de entes queridos, aceitámos com mansidão os desígnios de Cristo, porque sempre confiámos que Ele nos acompanhava nas nossas vidas, embora confessemos alguma desorientação por falta de capacidade de entender porque é que por vezes, achamos que Ele nos abandonou…fraqueza a nossa!

 Para quem tem como referência a Família de Nazaré, a fé recebe-se, cresce e desenvolve-se na família através de todas estas experiências tão complexas mas simultaneamente tão acessíveis, porque vividas em Amor: “Deus, que é Amor criou o homem por amor, chamou-o a amar. Criando o homem e a mulher, chamou-os ao matrimónio a uma íntima comunhão de vida e amor entre eles, “de maneira que já não são dois, mas uma só carne” (Mt 19,8), (Catecismo da Igreja Católica. Compêndio, 337)


 

 

3- Matrimónio & Família – Pastoral da Família

 

A pastoral familiar

Quando SS João Paulo II publicou a Exortação Apostólica  Familiaris Consortio nasceu o nosso 1º filho (Rui Pedro). Curiosamente, apenas conhecemos generalidades durante a década de 80, período em que os nossos 3 filhos nasceram.

Só em 1989, ano em que nasceu a Maria Teresa (a nossa 3ª descendente) lemos de uma forma sistematizada tal carta e, sobretudo, focámos a nossa atenção na preparação para o matrimónio (FC 65 - 69).

Percebemos que, segundo a Exortação sobre a Família Cristã, é o Bispo em cada Diocese (FC 73) o primeiro responsável pela Pastoral Familiar.

O único movimento organizado, no âmbito da preparação para o matrimónio,  a nível da nossa paróquia, era o CPM. Aliás, sabemos que não é o único movimento de tal pastoral, nem o único que prepara noivos para o Sacramento do Matrimónio, mas é indubitavelmente, o mais bem estruturado movimento (nessa área), com implantação nacional e internacional.

A terminologia da preparação remota, próxima e imediata encontra-se hoje um pouco desajustada. O hiato entre a preparação religiosa (catequese) e o casamento católico é cada vez maior, pois os jovens são bombardeados por contravalores que condicionam e abalam a sua concepção de vida cristã.

Por estas razões, defendemos que, a paróquia (no serviço de catequese), e a escola (através das aulas de Religião e Moral), na transmissão da fé, deverão dispensar um especial cuidado, em termos pedagógicos, na preparação das pessoas que vão acompanhar essas crianças e jovens; Elas deverão estar verdadeiramente imbuídas de virtudes humanas e cristãs, pois não poderemos ignorar as nefastas consequências que podem resultar de uma deficiente ou má condução de todo este processo formativo.

A nossa experiência pessoal demonstrou-nos o que acabamos de nos referir. A linguagem e transmissão da fé aos nossos filhos foi desde sempre uma responsabilidade que nunca delegamos em ninguém nem em nenhuma organização, embora aceitando a ajuda da paroquia, da escola ou de associações católicas onde eles melhor se revissem segundo as sua características próprias de personalidade e dons; Aqui, realiza a família a sua vocação de ajudar a criar e desenvolver relações comunitárias e fraternas com o próximo. Porém, por vezes tivemos que corrigir alguns desvios de percursos catequéticos, que achámos, não iriam favorecer a sua educação cristã.

 Esta atenção sistemática à obra da educação, foi e continua a ser uma constante na nossa família, com um contributo cada vez maior e melhor, por parte dos nossos filhos, agora jovens/adultos. A experiência de sermos ultrapassados por eles, no caminho da maturidade da fé e da capacidade para o serviço de compromisso a Deus e aos outros, é motivo de grande alegria e louvor ao Senhor, mas também de esperança de que possamos assim ter contribuído para a preparação de cristãos verdadeiros e comprometidos nas sua missões.

No documento da Igreja a que acima nos referimos, estruturante para os movimentos da pastoral Familiar, esboçou-se a Carta dos Direitos da Família. Mas o essencial, a nível organizativo (no nosso ponto de vista), foi o apontado por Sua Santidade para que leigos e pastores colaborassem em tal pastoral (FC 73). O CPM é, assim, um movimento ímpar, aberto aos outros, à génese de novas famílias, envolvendo casais e o assistente na preparação dos noivos numa base de imensa riqueza testemunhal.

 

O Directório da Pastoral Familiar

Sugerido pelos Bispos Portugueses em 1989 nas II Jornadas Nacionais da Pastoral Familiar, a criação de um Directório da Pastoral Familiar nunca foi inteiramente criado e implementado.

Muitas dioceses não exigem a frequência de sessões de preparação para o matrimónio, nomeadamente, as que o CPM dinamiza.

 Na nossa Diocese, ainda hoje, em alguns Arciprestados não é usual que casais católicos colaborem com os Párocos na preparação deste sacramento.

Alguns sacerdotes desconhecem mesmo, o CPM como movimento, enquanto serviço aberto à preparação dos noivos e à gestação de novas famílias.

Como Casal responsável Diocesano sempre pugnámos pela cooperação entre movimentos, na área da pastoral da família. Porém, tal coordenação não tem ido além da realização de uma Jornada anual para divulgar os Movimentos na Diocese, sendo, contudo, momento importante de formação.

Carta às famílias e Direitos da Família

A Carta dos Direitos da Família, foi publicada em 1983 na esteira da Familiaris Consortio, estando nela consagrados 12 artigos que constituem a carta magna da família cristã.

Em 1994, definido como o ano Internacional da Família, o Papa João Paulo II dirigiu uma belíssima e profunda carta às famílias, na qual consagra que a família é o primeiro e mais importante caminho de Igreja. Aliás tal afirmação sustenta-se em documentos resultantes do Vaticano II que estatuíram que uma das tarefas essenciais da Igreja é a “promoção da dignidade do matrimónio e da família”

Nessa carta o Papa João Paulo II falou-nos do “grande mistério” que envolve o sacramento do matrimónio e a similitude entre o amor esponsal de Cristo pela Sua Igreja. Não há que temer, porque através deste pacto conjugal, as famílias cristãs jamais estarão sozinhas, pois têm origem em Deus Criador.

Lembrou S.Santidade que, “os testemunhos escritos não bastam. Bem mais importantes são os testemunhos vivos”. Parafraseou, ainda, o Papa Paulo VI: “o homem contemporâneo escuta com maior gosto os testemunhos do que os mestres, ou se escuta os mestres é porque são testemunhas.”

Todavia, hoje interrogamo-nos se tais desideratos têm sido atingidos? Se modificou cada família concreta?

 Confirmamos que condicionou de forma determinante a nossa, que foi na linha destes ensinamentos que procurámos em sucessivas gerações de noivos no Alentejo, influenciar, com base nos nosso testemunho, a vida de futuras famílias. Acentuamos que, esta região de Portugal (o Alto Alentejo), é muito egocêntrica, deslumbrada por padrões de referência bem opostos aos que defendemos, tendendo cada vez mais para uma desertificação religiosa, ou pior ainda, no nosso entender, para a indiferença.

Confessamos que por vezes (muitas), desanimamos. Temos dúvidas na metodologia que escolhemos, pomos em causa a nossa capacidade de acolhimento aos noivos e outros casais, questionamos a articulação com a Paróquia, e assaltam-nos incertezas quanto ao amadurecimento da nossa fé. 

Será que a nossa capacidade de adaptação se encontra ajustada à velocidade da mudança na sociedade do conhecimento?

Será que os Bispos portugueses têm dado a importância proporcional à dinâmica da Pastoral Familiar?

Será que os casais, leigos e sacerdotes têm feito um esforço de reflectir a família e o matrimónio em parceria?

Será que o CPM para além de um espaço de formação consolidado se tem sabido articular com os Bispos de cada Diocese para a sua consolidação?

 

 

4- Equipa CPM e Famílias Cristãs

Equipas CPM: composição e metodologias

A constituição de uma equipa CPM, a sua progressiva renovação, a fidelidade aos princípios do Movimento, à sua metodologia, dinâmica de acção e aos temas que aborda, tem conhecido um conjunto de constrangimentos e complexificado a evolução do CPM.

É cada vez mais complicada a renovação das equipas na nossa Diocese. A manutenção dos Centros e das respectivas equipas foi adaptada à redefinição dos Arciprestados que constituem a Diocese.

O CPM é um movimento exigente, porque se baseia num pilar testemunhal que é incompatível com incoerências de vida cristã. Assim, o recrutamento de jovens casais é dificultado quer por esse grau de exigência, quer pela disponibilidade de tempo, sobretudo no período inicial de revisão de vida e de consolidação da equipa (aquando da sua constituição e/ou renovação). Registe-se que a escassez de tempo alegada pelos casais é transversal a outros movimentos.

Para além da disponibilidade de tempo, que outras exigências se colocam aos casais animadores das sessões CPM?

a)    Exigências de aprofundamento de Fé e de coerência de vida em Casal.”O estilo de vida cristão, testemunhado pelos lares cristãos, é já uma evangelização…” refere O Conselho Pontifício para a Família no documento “Preparação para o Sacramento do Matrimónio”;

b)    Exigências de articulação entre o grupo de casais e os Párocos (Clero Diocesano);

c)    Exigência da articulação entre os Casais e o Assistente (articulado com o Bispo e as suas orientação para a Diocese, nomeadamente no que concerne à Pastoral da Família);

d)    Exigência das paróquias (e da Diocese) na preparação para o Matrimónio;

e)    Exigência de qualidade das equipas e aposta sistemática na formação, nacional, diocesana, em casal e pessoal;

f)     Exigência na complementaridade entre os sacramentos da Ordem e do Matrimónio que lançam desafios actuais e complexos de articulação entre leigos e sacerdotes;

g)    Exigências formais da metodologia CPM, que por um lado dão coerência ao Movimento, mas por outro podem torná-lo rígido e com dificuldades de adaptação à nova era pós-moderna.

 

A formação cristã: respostas CPM (diocesanas e nacionais)

A formação é sem dúvida uma aposta das últimas Direcções do movimento, a nível nacional ou diocesano, apostando sempre em temas actuais, o que se traduz numa adesão significativa de “formandos”

O formato alicerçado em seminários, painéis com períodos de debates e reflexão, a partilha ulterior dos temas para aprofundamento dos mesmos é, por vezes, aproveitado pelos Casais coordenadores para dinamizarem reflexões no âmago das suas equipas diocesanas.

Contudo, a formação não é a panaceia para todos os problemas ou um selo de garantia.

 É uma utopia julgar-se que os casais se apropriam dos conteúdos de muitas das comunicações que lhes são apresentadas. Para além disso o formato da formação está muito datado, inspirando-se nos modelos dos anos oitenta. Talvez se pudesse aproveitar mais a evolução das tecnologias de comunicação, da internet, das plataformas de comunicação que permitem sincronizar comunicações à distância. Recordemos que Bento XVI, na impossibilidade de estar presente no Encontro Mundial das Famílias no México, recorreu a estas novas técnicas para transmitir a sua mensagem, e peregrinar espiritualmente até ao Santuário Mariano da Virgem de Guadalupe

Apesar destas dificuldades que urge debater, a formação nacional e diocesana, os encontros peregrinação que aliam a formação e a oração, as reuniões dos conselhos diocesanos ou assembleias-gerais (conforme o modelo de estatutos), permitem afirmar que o CPM é um dos mais bem organizados movimentos da pastoral da família nas várias dioceses.

Tal organização nacional pode constituir um sinal de força que, eventualmente, desafia e desinquieta os interesses mais instalados nas dioceses. É importante que o CPM se sinta amado pelos seus Sacerdotes, pelos seus Bispos, por todos os seus intervenientes e…também pelos casais que o formam. Como diz um conhecido anuncio, “Se não gostarmos de nós, quem gostará?”

Os casais das equipas: rosto visível das famílias cristãs

Na perspectiva deste casal, o CPM, por vezes, quase esquece que por detrás de cada casal está uma família.

Em cada equipa, sente-se um conjunto de famílias cristãs praticantes, activas na Fé, muitas vezes empenhadas em múltiplos movimentos, comprometidas com as suas paróquias, as suas dioceses, os respectivos Bispos. Existem filhos, crianças ou jovens, netos, por vezes os antepassados carentes e frágeis. A família cristã está na raiz da equipa, e capta as suas fragilidades, os seus dilemas, os seus desencantos e alegrias.

A mobilização e colaboração dos casais nas equipas, nem sempre acontece de uma forma continuada ou serena. Na nossa equipa, assistimos a várias dessas instabilidades e actualmente, a uma “crise” por falta de casais, determinada pela dificuldade em organizar a vida familiar com a profissional e social, mas também a uma fraca formação catequética, que cria debilitação na fé e acaba por afundar o próprio casal nas horas de instabilidade.

Recorremos às palavras do Santo Padre quando afirma que a família cristã é um “Evangelho vivo” que todos podem ler, quando esta, vive na confiança e obediência filial a Deus, na fidelidade e no acolhimento generoso dos filhos, no cuidado dos mais fracos, na prontidão para perdoar…

Ao apresentar esse testemunho de vida, na vizinhança, na escola, no trabalho, com a linguagem da fé, aprendida e cultivada no seio da família, estaremos seguramente a promover os valores do matrimónio, a evangelização de futuras famílias.

Por isso achamos tão importante celebrar a fé em todos os compromissos da nossa vida: debate de ideias com outros (artigos de opinião em Jornais, aproveitar convites para divulgar na rádio o CPM, participar activamente em campanhas a favor da vida), ajudar os filhos a compreender as informações que os meios de comunicação nos trazem, descobrir a importância das renuncias, as férias e celebrações em família, a cordialidade e acolhimento dispensado aos idosos e doentes, reorganizar a vida profissional para termos tempo para “simplesmente estar com”…

A revisão de vida, confere a matriz testemunhal, verdadeiramente incontornável do CPM. Atrevemo-nos a considerar que se a revisão de vida não acontece com autenticidade no seio de cada casal, os laços de coesão da equipa, ficarão muito frouxos e facilmente se desligarão e o “testemunho” para os noivos, não passará de uma mera exposição ou troca de experiências.

A metodologia activa baseada em técnicas pedagógicas datadas, em metodologia de trabalho em grupo presencial, com casais que são “animadores” de grupos tão heterogéneos em termos de habilitações académicas e em diferentes estádios de desenvolvimento na sua formação religiosa, não deve ser encarada como uma metodologia fundamentalista que deve ser seguida cega e acriticamente.

É certo que vivemos na aparente ilusão de que resulta bem… ultimamente até se tem seguido uma tendência consolidada de concentração da apresentação dos temas em dois ou três dias. Tal estratégia para ir ao encontro da alegada escassez de tempo por parte dos noivos, pode conter efeitos perversos que não se podem desprezar.

O Assistente

Também a escassez de padres e diáconos, tem justificado a ausência dos assistentes das sessões CPM em cada arciprestado / paróquia. Afastando-se, ou por confiarem nas equipas, ou por não terem coragem de confrontar o Movimento com criticas directas e, quiçá, legítimas de falta de profundidade de abordagem dos temas, ou ainda por não lhe reconhecerem importância nas tarefas desempenhadas.

A complementaridade Casal/Equipa versus Assistente decorre da complementaridade entre os Sacramentos do Matrimónio e da Ordem. Tal complementaridade pode ser transformada numa falsa dicotomia, num receio de perda de protagonismo por parte do Pároco, numa pequena disputa entre os casais em maioria e o peso institucional do Pároco que em termos do direito canónico é o responsável pela porção de Igreja que coordena.

 A maior ou menor participação dos leigos decorre da perspectiva que se tem da Igreja Pós Conciliar e da evolução recente que o presente Sumo Pontífice, (ou o anterior e saudoso João Paulo II), têm vindo a imprimir à Igreja na viragem de século.

Mas será que tudo está bem na comunidade paroquial?

a)    Será que a catequese das crianças e jovens está a ter a eficácia pretendida?

b)    Será que a pastoral da juventude tem acompanhado a ausência de formação religiosa pós crisma até ao matrimónio?

c)    Será que a pastoral da família tem conseguido federar as “quintinhas” dos diferentes movimentos?

d)    Será que cada Bispo, na sua respectiva Diocese, enquanto responsável por esta pastoral estará disposto a partilhar, com os leigos, algum protagonismo ousado em termos de formação e reflexão do papel das famílias na re-evangelização?

e)    Será que os ataques sistemáticos e concertados que a família em geral, está a sofrer, tem tido uma reacção proporcional adequada,  de todos nós, enquanto comunidade?

Grandes desafios se colocam aos Bispos em funções, aos seus órgãos de coordenação, ao próprio Vaticano!

Enfrentar os poderes instituídos é aceitar que a Igreja é e será sempre contra-poder, resistente às tentações dos poderosos, sempre ao lado dos humildes e puros de coração. Recorde-se que a Igreja no nosso País abdica de um canal de TV, quase disfarça o seu canal de rádio, não tem a coragem de criar um projecto jornalístico autónomo, não assume o risco de competir pela mensagem cristã.

 

O Casal responsável: responsabilidade dual (matrimónio / ordem)

A liderança de uma equipa CPM é partilhada por um dipolo Casal Coordenador / Assistente, que constituem dois pólos equilibrados entre dois sacramentos complementares: matrimónio e ordem.

Uma equipa estará sempre pouco sustentada na sua espiritualidade se o sacerdote assistente não tiver uma intervenção dinâmica e formativa na caminhada da Fé.

Uma Paróquia estará sempre depauperada se o seu Sacerdote não perceber a importância do testemunho da vivência do matrimónio por parte de um Movimento como o CPM (ou, eventualmente, outro com características análogas)

A participação do Sacerdote na consolidação, aprofundamento e actualização dos diferentes membros da equipa de Casais, é essencial no crescimento espiritual da equipa. O casal coordenador tem por missão e responsabilidade representar a equipa, ser porta-voz da mesma no Conselho Diocesano e ser portador de informações deste órgão proferidas pelas estruturas nacionais.

Numa óptica “light” em que o CPM, por vezes se pode deixar envolver, o essencial está na metodologia, no formalismo dos 6 temas, no cumprimento do planeado, no grau de satisfação dos noivos, enfim no serviço “ao cliente”.

Os casais que se apresentam diante dos noivos, são enviados pelas suas paróquias numa missão de formar, ou ajudar no processo de formação dos pares de noivos, o que implicará uma sólida e idónea formação cristã e, sobretudo, uma prática religiosa, fiel e de alegre disponibilidade, que permita garantir que os testemunhos que apresentam são credíveis, vivenciados, coerentes com a sua prática de vida.

São casais que representam famílias cristãs, com as suas virtudes e dificuldades, as suas experiências de fé autêntica ou repleta de fragilidades, com dúvidas na formação dos seus filhos, angústias no tratamento dos seus idosos, problemas do quotidiano, desde a vivência da sua sexualidade até às dificuldades profissionais.

 As exigências de Fé dos casais cristãos, que experimentam o serviço de colaborar na génese de novas famílias, requer cada vez mais, esforços de preparação adequados, que ajudem a reforçar o exigente processo de maturidade dessa mesma fé, pelo que esta missão deverá está intimamente articulada com a pastoral da família, da juventude e da formação catequética de adultos.

 

5- Amor e fé

O aprofundamento da fé nos casais CPM

O CPM, é um Movimento católico que (pelo menos em Portugal), tem amplas e sistemáticas preocupações com a sua formação permanente, quer a nível diocesano, quer a nível nacional.

A nível da Direcção Nacional, é reconhecido o rigor, a profundidade e a actualidade das temáticas afloradas, normalmente respeitando os diagnósticos que são elaborados aquando das avaliações no âmbito da formação nacional anual e do encontro peregrinação nacional em Fátima, onde a oração e a formação são uma regularidade que garante a qualidade da formação e o seu cruzamento com a Fé e a Oração.

A nível das várias dioceses, mais de 50% delas garante pelo menos uma formação diocesana. No que concerne à Diocese de Portalegre – Castelo Branco, com a anuência e a superior orientação do nosso Bispo, D. Antonino Dias, tem existido uma aproximação entre a dinâmica da Pastoral da Família e a dinâmica do CPM diocesano. No ano transacto, a V Jornada da Pastoral Familiar foi articulada com um Conselho Diocesano e culminou numa Eucaristia comum que envolveu mais de 500 fiéis, a maioria orando em casal, com uma fervor e uma participação invulgar.

A formação pode potenciar um aprofundamento do saber no domínio dos documentos da Igreja, dos provenientes do Vaticano, dos que são gerados no âmbito das Conferências Episcopais, ou por iniciativa dos Bispos das diferentes Dioceses Portuguesas.

Hoje em dia, a informação já flui na internet com regularidade e usam-se os sítios oficiais da Igreja Portuguesa, os das diferentes Dioceses e, também, de muitas paróquias.

Nas equipas CPM da nossa Diocese, mais de 80% da comunicação é efectuada em suporte digital, o que nos leva a concluir que, tal tendência, poderá ser irreversível mas sempre complementar dos contactos pessoais e presenciais nas reuniões diocesanas e locais.

O empenhamento em maior qualidade e rigor na preparação dos casais, tem que passar por um exigente processo de educação na sua própria vida conjugal, pois como alguém referiu, ”nós os cristãos, somos testemunhas de Jesus Cristo mais pelo que vivemos, do que pelo que dizemos”.

E a experiência de rezar em comunhão com outros casais é também ela sensibilizadora e impulsionadora no crescimento da nossa fé.

 

O Catecismo e a catequese de adultos

Sendo o Catecismo da Igreja Católica um instrumento essencial para a “Nova Evangelização” ele pode ser utilizado numa dupla perspectiva: na catequese propriamente dita (mesmo na de adultos) e na formação cristã dos elementos mais activos em movimentos da Igreja.

Importa aqui realçar o seu aproveitamento, na formação de leigos empenhados e comprometidos com movimentos, designadamente o CPM, pois a envolvência nestes projectos, implica uma formação permanente que  reforce as nossas  certeza na fé, e nos instrua com conhecimentos  doutrinais ( que podem ser consolidados com outras leituras aprofundadas, individualmente ou em grupo). Estes, são passos essenciais para suscitar um crescimento na fé.  

Recordamos uma experiência não muito bem sucedida numa paróquia. Pretendeu-se ser exigente e autêntico na celebração dos sacramentos que anualmente ocorriam nessa paróquia. Partiu-se da premissa verdadeira que a formação era uma solução para o aprofundamento da fé. Passou então, a ser obrigatória, por imposição da equipa sacerdotal, que todos os envolvidos na preparação dos sacramentos deveriam ter um ano de formação catequética. Juntaram-se em torno de temas definidos a nível da diocese, pessoas que se preparavam para o Baptismo, para padrinhos de Crisma ou Baptismo, para o Matrimónio, etc, a todos seria ministrada a mesma formação padronizada. Entre pessoas com as mais diversas formações e motivações, resultou uma heterogeneidade impossível de gerir, mesmo com a ajuda do Espírito Santo.

Imagine-se uma escola, num país de analfabetos que juntasse no mesmo espaço pessoas com múltiplas formações iniciais, experiências diversificadas, diferentes idades e se formassem turmas aleatórias de uma hora semanal… o que é um docente poderia fazer para tentar ensinar o que quer que fosse? No fim, independentemente do empenho, apenas pelo registo de presenças, todos seriam considerados aptos para enfrentar a vida! Não resultaria certamente.

 

Centros de formação: sacerdotes, diáconos, religiosos, casais cristãos

Seria importante reflectir, sobre como seria possível caminhar para Centros de Formação a nível Diocesano, com ramificações pelas paróquias, tentando desenvolver o gosto pelo saber espiritual, pela Palavra dos textos Bíblicos, pelos escritos dos Sumo Pontífices, pelos documentos emanados das Igrejas Diocesanas. Só quando se redescobrir o sabor desse estudo, os cristãos, ainda que minoritários e assumidamente praticantes, poderão evoluir para outros estádios de desenvolvimento.

Hoje, já existem experiências pioneiras de formação à distância envolvendo as novas tecnologias que terão um efeito exponencial se cada paróquia se apetrechar com um número razoável de PC ligados à Internet e os colocar em locais adequados que não os endeusem e os impeçam de ser idolatrados.

Presentemente, são possíveis sessões síncronas em todas as paróquias de uma determinada Diocese orientadas pelo Sr Bispo, ou por um painel de pessoas, que desafie a tal desenvolvimento, a disseminar o fermento, que amplie o “maná” existente na Palavra, assim como a sua apreensão e o seu aprofundamento.

Novo paradigma de formação de missão (minorias)

O próprio CPM pode ousar inovar, sendo fiel aos seus princípios, á sua temática, às suas metodologias, ao trabalho de grupo presencial.

Na nossa Diocese poucos são os Centros que conseguem realizar as 6 sessões protocolares. A fidelidade cinge-se aos princípios, à metodologia, à essência testemunhal que marca o CPM (e mesmo esta Comunicação).

 Mas com uma plataforma moodle associada á página do CPM na Net, poder-se-ia efectuar o acolhimento à distância, o contacto entre pares de noivos e as equipas, o envio de temas para reflexão autónoma, etc.

Tal metodologia não põe em causa a actual dinâmica do CPM na nossa Diocese, mas cativaria os jovens, através de meios que estão habituados a usar, permitiria uma reflexão e uma preparação que teria impacto e poderia abrir outros caminhos de evangelização…

Não sendo o regresso às catacumbas, parece-nos que estamos condenados a um tempo de minorias, em que a qualidade se sobrepõe á quantidade.

As novas ferramentas tecnológicas podem ser uma alternativa ao falhanço da TV católica, a uma certa falta de coragem da Igreja para se associar a um Jornal de referência de tiragem nacional (sem invalidar a imprensa local cujo papel é complementar

A Eucaristia semanal, a nossa oração( e tão pouco e mal que nós rezamos), podem ser alicerces para a nossa vida, mas só os muito distraidos não observam, que estamos a perder a luta pelos nossos valores, pelo património secular cristão (também repleto de erros e cumplicidades com o Poder).

 

O catecismo da igreja católica

Também através de documentos da Igreja Deus esteve sempre connosco. Quando João Paulo II apresentou o Catecismo da Igreja Católica (1992) a nossa família estava já estabilizada. Era nossa intenção fazê-la crescer em qualidade. O nosso filho mais velho fez 11 anos nesse mês de Dezembro e a mais nova tinha 3 anos. A nossa filha Sofia, nasceu um mês depois do Santo Padre ter correspondido ao apelo do Sínodo dos Bispos de 1985 e ter criado a Comissão (1996) que em 7 anos produziu tal documento basilar.

Acreditámos, então, que tal documento iria dar um impulso incomensurável à Pastoral Catequética e à formação dos cristãos mais empenhados e participantes nos diferentes movimentos da Igreja. Seria o primeiro impulso para a nova evangelização.

Acreditámos que este documento produzido na esteira do Concílio Vaticano II iria ter um forte impacto neste movimento CPM e na preparação, em geral, para o sacramento do Matrimónio.

Acreditámos, enfim, que o Catecismo seria um instrumento de evangelização, de acção missionária, de formação para os cristãos católicos ao longo da vida. Para além da leitura individual o importante para a Pastoral da Família seria a sua leitura reflexiva em grupo, em família, nos movimentos, no CPM.

Tal reflexão, permitiria revisões de vida mais fundamentadas, consolidando a fé na segurança doutrinal, apoiando cada crente, cada casal cristão, cada família cristã, a elaborar a sua própria síntese de fé, pessoal mas fiel à doutrina. Esta formação seria uma forma de colmatar as lacunas decorrentes da formação religiosa heterogénea e pouco consolidada.

A educação da fé não está condicionada a idades; o ensino e a aprendizagem da doutrina cristã, a catequese, a preparação para os sacramentos, podem revestir várias modalidades, com diferentes graus de aprofundamento.

Admitimos, na altura, que o novo Catecismo colocaria desafios à Igreja, desde logo na renovação dos catecismos, mas também nas diferentes preparações para os sacramentos. Também no que concerne ao discernimento para observar os novos sinais dos tempos, vividos e experimentados em comunidade, o catecismo seria um auxiliar ímpar na interpretação consolidada da doutrina.

O documento demorou 7 anos a ser criado. Esgotado mais do dobro do tempo são raros os movimentos, dioceses e paróquias que pegaram no mesmo, arregaçando as mangas e implementaram formas criativas de formação cristã, através de Centro de Formação Cristã (CFC) que poderiam conter CPM, CPB,  a catequese paroquial tradicional, a catequese de adultos, etc .Tais Centros generalistas (formação contínua permanente) poderiam mesmo ser o fulcro de recrutamento para outros estudos de especialização.

Quase nada disto foi posto em marcha…

Mantém-se a actualidade da nova evangelização, e poderemos perguntar se o fracasso parcial da catequese paroquial não se ficará a dever à não adesão à mudança de paradigma que se exige neste momento em que mudámos de milénio… um dos grandes desafios catequéticos passa pela ausência de formação entre o fim da catequese e o CPM.

Este processo educativo foi assumido na nossa família como necessidade em ordem a melhorar a nossa consciencialização nas opções a tomar na vida em concreto. Ao reforçar este crescimento com o estudo e reflexão da Palavra de Deus, o casal que formamos e os nossos filhos, sentimo-nos mais dinâmicos e disponíveis para enfrentar com coragem cristã, os desafios e tarefas sociais, eclesiais ou de participação cívica ou de voluntariado.

 Quais os desafios para a catequese em família? E para a catequese como testemunho de vida ou para a descoberta do sabor da formação e educação cristã?

Perspectiva unificadora do amor e  Comunidade de amor

O amor entre a mulher e o homem é abordado por SS Bento XVI na sua primeira encíclica (Deus é amor) (2006). Nela desenvolve uma perspectiva unificadora entre o amor – eros e o amor – ágape.

 Esclarece de forma clara que “a falsa divinização do eros (…) privando-o de dignidade, desumaniza-o”; Em contrapartida, ágape, é um amor que “não se busca a si próprio (…) procura o bem do amado: torna-se renúncia, está disposto ao sacrifício, procura-o até”.Todavia, conclui que o eros e o ágape, o amor descendente e possessivo e o amor ascendente e oblativo, não se deixam separar completamente um do outro. Assim sendo, o amor é uma única realidade, que se pode perspectivar em distintas dimensões.

Esta perspectiva dual e complementar entre duas formas de amor, pode ser cruzada com a outra perspectiva dual de complementaridade entre homem e mulher.

O amor ao próximo, radica no amor de Deus mas  o amor conjugal ajuda compreender a caridade no seu sentido mais profundo.

A comunidade de amor mais restrita é sem dúvida a família. A Igreja deve também ser uma comunidade de amor. O Santo Padre Bento XVI sistematiza esta ideia referindo que a Igreja é a família de Deus e que a Igreja se exprime pelo anúncio da Palavra de Deus, pela celebração dos Sacramento e pelo serviço da Caridade.

De certa forma, o CPM é um serviço de caridade porque se abre ao próximo, aos noivos que geram novas famílias ao celebrarem o sacramento do Matrimónio. Trata-se de um serviço de voluntariado aberto à vida e ao mistério do matrimónio. Nesta linha que Bento XVI chama a cultura da vida e João Paulo II chamava a civilização do amor, viver o amor é “fazer entrar a luz de Deus no mundo”. Assim, desenvolver o amor no casal unido pelo Matrimónio, é um primeiro passo para a criação de uma comunidade local (paroquial ou diocesana) de amor.

A fé e a esperança

Parece-nos que aprofundar a fé nos casais católicos é uma forma de ter esperança no futuro das famílias cristãs. O Santo Padre Bento XVI na sua 2ª encíclica “Salvos na Esperança” defendeu que esperança equivale a fé. Essa premissa dá-nos uma garantia: que é na esperança que se alicerça a alegria dos cristãos, nomeadamente, das famílias cristãs, pois sabemos que a vida não acaba no vazio.

Na esteira desta encíclica papal (2007), podemos garantir que a mensagem passada no CPM para ajudar a formar e a preparar pares de noivos para o matrimónio, é claramente “performativa” ou seja, como nos indica Bento XVI pode “transformar a nossa vida a ponto de nos fazer sentir redimidos através da esperança” (SE,4), a qual deve chegar a outros (por exemplos noivos) que irão  gerar novas famílias.

A singularidade do casal

Cada pessoa é única, é singular. Na óptica cristã cada casal não é um par, é singular, uno, mas simultaneamente, é trinitário (eu + tu + Ele). Assim, na nossa perspectiva, cada casal unido pelo sacramento do matrimónio é o cerne das famílias cristãs.

Precisará a Igreja de casais?

 Precisará a Igreja de Sacerdotes e de outros Consagrados?

A beleza da harmonia de um casal apaixonado envolve um contacto com a estética em geral. As diferentes formas de arte, o amor conjugal, a transmissão da vida, envolvem uma interacção divina entre a estética e o sentido da vida.

Ninguém fica indiferente à beleza de muitas igrejas, à arte sacra nelas contidas, às diferentes formas de música sacra, mas em cada casal cristão, unido pelo sacramento do matrimónio, também se sente a beleza, desde a harmonia e a singularidade do casal, à disponibilidade para gerar novos seres, acolhê-las com generosidade e amor e desenvolvê-las ao longo de um progressivo processo educativo.

A singularidade de cada casal é uma preciosidade.

 

As famílias testemunhas da verdade e da fidelidade

No dia em que se completaram 35 anos em que nos conhecemos, o Santo Padre Bento XVI publicou a sua 3ª encíclica “Caridade na Verdade” (2009); Nela, afirmou: “o amor é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz (…) por isso, defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida” (CV,1). No CPM, o testemunho é um dos pilares estruturais da nossa metodologia.

As famílias cristãs, alicerçadas no amor e inseridas nas suas comunidades e na sociedade, podem ser um contributo essencial na busca da Justiça e do Bem Comum de que nos fala Sua Santidade. As famílias que ajudamos a construir aquando da preparação dos noivos para o matrimónio são, elas mesmas, testemunhas na busca dessa  verdade e justiça.

Em suma, existe uma relação biunívoca entre Amor na Verdade e Verdade no Amor, que toca no âmago da nossa missão em CPM.

Mesmo no que concerne à educação dos filhos, à preparação da sua formação humana e axiológica, estamos a apostar no desenvolvimento humano, a nível de cada família. No nosso movimento ajudamos a reflectir criticamente a vida quotidiana, o mundo em permanente devir. Tal como propõe o Papa Bento XVI, orientemo-nos por princípios como o da gratuidade, o da solidariedade, o da subsidiariedade e o da centralidade na pessoa humana e, obteremos uma cultura personalista, comunitária aberta à transcendência e à globalização.


 

 

6-Matrimónio e nova evangelização

A catequese: suas dificuldades

A catequese paroquial tem raízes profundas e méritos inquestionáveis. O esforço de tantas (e tantos) catequistas, bem como as dinâmicas implementadas em cada ano pastoral pelos Párocos, são um exemplo de uma escola de formação para os pequenos, ao longo de mais de 10 anos de escolaridade e que culmina com a celebração do sacramento do Crisma.

Contudo, será que o seu efeito resiste á erosão da informação trabalhada pelos órgãos de comunicação? O interregno nesta formação de base deixa algum rasto de conteúdo cristão?

Será, enfim, que a catequese responde aos desafios da nova era da comunicação que tão frequentemente deturpa a mensagem cristã, a ridiculariza, a considera retrógrada e ultrapassada?

A escola pública e a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica

As mesmas forças que combatem a Igreja, já o fizeram noutras eras nos tempos do Liberalismos, durante a 1ª república, embora hoje, sejam mais subtis.

A escola portuguesa baniu quase completamente a escola privada que só sobrevive em estreitas zonas do País. Fez-se passar a ideia de que a escola pública era a melhor solução, para garantir uma aparente neutralidade, uma equidade entre todos, que esbatesse as assimetrias sociais, que garantisse a igualdade de oportunidades.

Foi assim que, passo a passo se afastou de muitas escolas, a educação moral, tornando-a opcional, remetendo-a para horas impróprias, em nome de uma pretensa maioria. Se muitas das disciplinas fossem facultativas quem as frequentaria? Quantas pessoas escolheriam “física” se fosse opcional?! Por isso hoje temos imensos engenheiros que não têm de ter física para frequentar faculdades que certificam tais cursos. E se a matemática não fosse obrigatória…

Na realidade, só existe uma verdadeira opção se existir alternativa: Queres ter isto ou nada (tempo livre)?, não é uma verdadeira proposta!

 

 

 

Os Novos desafios de formação cristã nas famílias

Já não basta preparar os noivos para o Sacramento do matrimónio como se de um único dia se tratasse, mas antes recentrar tal preparação para a vida quotidiana, os seus desafios, as suas dificuldades, as suas fases, as redescobertas do amor conjugal em cada fase, os momentos críticos que se têm de ultrapassar.

A formação cristã PARA o matrimónio não se pode resumir à preparação remota e próxima. O essencial é a preparação cristã NO matrimónio, nas suas etapas, na reciclagem da formação cristã para a educação dos filhos em complementaridade com as paróquias, na vida em comunidade paroquial que é uma comunidade de famílias, que por sua vez se alicerça na comunidade conjugal que atrás aludimos.

A preparação para o matrimónio deve inscrever-se na urgência de evangelizar a cultura, permeando-a nas suas raízes ( Conf. Exortação Apostólica Evangelli Nuntiandi, 19) em tudo aquilo que se refere à instituição do matrimónio: fazer penetrar o espírito cristão nas mentes e nos comportamentos, nas leis e nas estruturas da comunidade onde vivem os cristãos( catecismo da igreja católica n.2105).

 

As famílias

Se a Igreja defende (e nós também) que as famílias são o pilar social, não podemos ignorar o que se passa com as famílias nesta era pós – moderna.

As famílias cristãs começam a ser minoritárias, pelo que temos de caminhar para a consciencialização dos desafios que enfrentam, da sua preparação contínua, quer em movimentos de espiritualidade virados para dentro de cada família, quer para outros movimentos, como o CPM, em que as famílias se abrem aos outros, ao serviço e à missão de formar outras gerações, de debater e inflectir rumos.

Cada Casal CPM, cada Equipa de Casais, é uma família com rosto, com nome, ou uma frente de famílias, inseridas numa comunidade local. No fundo é como se cada casal fosse um porta - voz em estereofonia, que comunica com outros, com famílias em devir, representada por cada par de noivos. O som estereofónico tem cambiantes que traduzem a dualidade das perspectivas do homem e da mulher… da família natural, que tanto ataque sofre  com o silêncio cúmplice de muitos católicos, e até  de certa  hierarquia da Igreja.

 

 

O paradigma testemunho e da autenticidade de vida

Na esteira desta corrente testemunhal que expurga a hipocrisia farisaica, o CPM é um movimento exemplar… não porque queira ser mais que os outros, ou que se considere o único movimento com responsabilidade na formação dos novos casais, ou que se pretenda sobrepor aos sacerdotes (e párocos).

É paradigmático, pois alicerça-se no testemunho de vida, na simplicidade do saber-fazer, do saber-ser, mesmo que muitas vezes com fragilidades conceptuais no âmbito do saber-saber (nomeadamente numa certa impreparação ou pouca profundidade) cujas lacunas a formação atrás reflectida, procura suprir.

O testemunho é a palavra-chave do nosso movimento.

O testemunho de vida não é sabedoria científica; é conhecimento que reflecte saber de experiência feito; é conhecimento que se alicerça na Fé, no Amor conjugal que espelha o Amor de Deus pela Humanidade, na experiência da oração.

Contribuir para a formação dos noivos, é como um pontapé de saída que desencadeia um desafio único, porque funde duas pessoas num novo “ser” em continuo crescimento: um nós eterno, indissolúvel, capaz de gerar novos seres, colaborando, assim, com Deus no processo da criação e de evangelização.

Não se dão lições de vida, testemunha-se o amor conjugal com Fé, enriquecido e fortalecido com a atracção ímpar que o Senhor confere a cada casal e a cada um dos seus elementos e da família que concebe.

Na esteira destas palavras finais podemos considerar que o caminho de Fé que temos de trilhar em conjunto inicia-se, a dois, mas é percorrido em família alargada, na senda da vida. Assim, os caminhos de Fé são percorridos de mãos dadas com os nossos filhos, com o seu crescimento físico e espiritual, com a autenticidade do que eles vêem e pressentem na relação a dois.

A sabedoria e discernimento que rogámos ao Senhor, decorre da simplicidade de um testemunho que não sendo exemplar, é o resultado de uma experiência de vida reflectida e não raras vezes, inflectida.


 

 

Conclusões

Em suma, defendemos é que a preparação para o Matrimónio se transforme na preparação NO Sacramento do Matrimónio, no amor; Que não seja algo que se esgota no dia em que esse sacramento é recebido, mas que se aprofunde, como autodidactas, com formação individual ou em casal, com a catequese dos filhos, com a reflexão sobre a palavra em cada Eucaristia.

 

Deixamos alguns desafios para reflectirmos e debatermos:

 

A)   Estamos a preparar convenientemente os noivos?

B)   Os noivos vêem nos casais CPM, testemunhos vivos do Matrimónio?

C)   A formação que se tem proporcionado às equipas, não deveria evoluir para outro patamar?

D)   Os caminhos de Fé de cada Casal, são testemunhados nas equipas e nas famílias?

E)   Os nossos Assistentes participam no crescimento espiritual das equipas?

F)   As equipas de casais estarão disponíveis para outros estádios de formação?

 

A nossa única certeza é a ESPERANÇA que decorre da FÉ que nos cede uma energia incomensurável e inexplicável.

 

 

 

Anabela e Domingos


 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

Bento XVI (2006). Deus é amor. Secretariado Geral do Episcopado. Prior Velho          

Bento XVI (2007). Salvos na esperança. Paulus editora. Lisboa

Bento XVI (2008); abordagem de ruptura num mundo em equilíbrio precário. Editora Peixe, Coimbra

Bento XVI (2009). Caridade na Verdade. Secretariado Geral do Episcopado. Prior Velho

Comissão Episcopal Portuguesa (1994). O catecismo da Igreja Católica e a sua utilização Pastoral. Edição do Secretariado Geral do Episcopado. Lisboa.          

Conferência Episcopal Portuguesa (1992). Oo de casais novos. Edição do Secretariado Geral do Episcopado. Lisboa

Conferência Episcopal Portuguesa (1994). O catecismo da Igreja católica e a sua utilização pastoral. Edição do Secretariado Geral do Episcopado. Lisboa

João Paulo II (1989). Familiaris Consortios. Secretariado Nacional do Apostolado da Oração (6ª edição). Braga

João Paulo II (1994). Carta do Papa à Famílias.Familiaris Secretariado Nacional do Apostolado da Oração. Braga