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"Estai sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança" (1 Pe 3,15) Rev. Cónego António Janela e Ana e Vasco Varela Senhoras e Senhores, irmãos em Cristo
O tema que nos foi proposto baseia-se numa passagem da 1ª Carta de Pedro (3, 15). Comecemos então por recordar aqui o seu enquadramento: “E quem vos poderá fazer mal, se fordes zelosos em praticar o bem? Mas, se tiverdes de padecer por causa da justiça, felizes de vós! Não temais as suas ameaças, nem vos deixeis perturbar; mas, no íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça; com mansidão e respeito, mantende limpa a consciência, de modo que os que caluniam a vossa boa conduta em Cristo sejam confundidos, naquilo mesmo em que dizem mal de vós. Melhor é padecer por fazer o bem, se é essa a vontade de Deus, do que por fazer o mal.” Nesta passagem foi-nos pedido que foquemos a atenção nesta frase do vers.15 “(estai) sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça”. A nossa intervenção pretende ser virada para os animadores do CPM, recordando o seu papel fundamental para a formação dos noivos, através do testemunho dos próprios casais. Testemunho dado pela palavra, mas também pela vida. Mostrando não apenas o que pensam mas também o que fazem. Testemunho fundado numa consciência clara do pensamento da Igreja e vivido em coerência de vida. Vivido a dois, em família, mas também em pequena comunidade de vida com outros casais da equipa para que o testemunho seja mais rico e verdadeiro porque fundado numa preparação cuidada, com amor, mas também com exigência, porque sabemos que assim o testemunho será mais perceptível e eficaz. INTRODUÇÃO Ao preparar esta nossa intervenção partimos da vivência passada em casal, Ana e Vasco, e no Sacerdócio, Cónego Janela, casal e padre que partilhamos uma experiência de vida nos últimos 30 anos iniciada exactamente com a realização de um CPM. no ano de 1980. Esta experiência de CPM repetiu-se algumas vezes com o mesmo grupo de casais animadores. A dado momento surgiu, então, a necessidade de aprofundarmos aquilo que vivêramos em conjunto, razão pela qual nos decidimos a constituir uma Equipa de Nossa Senhora, movimento eclesial fundado por aquele que também seria o fundador dos CPM, o Padre Henri Caffarel[1]. É oportuno recordar que temos uma raiz comum. Temos o mesmo fundador, o Padre Caffarel. Quando foi constituída a Comissão de Direcção dos CPM, o seu primeiro Director foi o Pe. Caffarel que já, em 1944, se ocupava dos noivos promovendo sessões em que realizava conferências. Mas antes destas conferências, havia sempre uma troca de pontos de vista alimentada pelo correio que os noivos deviam enviar aos dirigentes da sessão, manifestando as suas reacções e questões […] suscitadas pela conferência anterior». Esta preocupação do padre Caffarel levaria à criação dos centros de preparação para o matrimónio (CPM). Em 1956 o Padre Caffarel confia a Jean e a Jacqueline Pillias a responsabilidade pela preparação dos noivos para garantir a unidade dos esforços[2]. Pois bem, pode perguntar-se, o que é que um padre e um casal - casal este que se iniciou na actividade pastoral com o CPM e tem vivido um percurso paralelo nas Equipas de Nossa Senhora - podem agora trazer para esta conferência? E foi a questão que nos colocámos, logo no início. Para responder a esta questão fomos pesquisar os textos do Padre Caffarel para relembrarmos o que ele nos deixou. Encontrámos muitos textos, alguns já publicados em Português, mas um prendeu mais a nossa atenção. Trata-se do seu testamento espiritual (dado em Chantilly, França, em 1987, 14 anos depois de se ter voluntariamente afastado da responsabilidade do Movimento das Equipas de Nossa Senhora). Encontrámos também uma fonte enorme de inspiração na revista l’Anneau d’Or que o Padre Caffarel editou em França entre 1945 e 1967. Ao relermos estes admiráveis textos do nosso Fundador comum, sentimos uma enorme admiração pela sua capacidade de ver mais longe, pelo discernimento e clareza da sua análise e constatamos que ainda hoje nos revemos inteiramente nas suas palavras proféticas que mantêm uma actualidade que impressiona. Ficou pois assim muito facilitada a nossa tarefa e sentimo-nos, hoje e aqui, quase como que chamados, como que emissários e porta-vozes, trazendo as palavras do Padre Caffarel, que encontram eco visível no que temos experimentado ao serviço da Igreja, em diversas actividades pastorais de natureza paroquial, diocesana e nacional. O que vos trazemos não são [pois] propriamente as nossas palavras, mas a nossa vida segundo as palavras de Caffarel. Assim Deus nos ajude a comunicá-la com clareza. Nestes textos o Padre Caffarel apresenta-nos a Espiritualidade Conjugal, vivida e aprofundada em pequenas comunidades. Não é um exclusivo de nenhum Movimento, nem apenas válido para alguns Cristãos. É uma descoberta vivida e aprofundada em Igreja ao longo de muitos anos que pertence hoje ao Património comum. Pode ser vivida de muitas maneiras e métodos. Importa pois conhecer bem a Espiritualidade Conjugal, para a poder viver, aprofundar e testemunhar. O que podemos talvez sugerir, pela nossa experiência passada, é que seja considerado o aprofundamento da Espiritualidade Conjugal nos CPM para melhor se poder avaliar do seu interesse em a divulgar entre os casais animadores para que experimentem também eles novas dimensões nesta admirável descoberta permanente que é o Dom que transportamos, dado por Cristo: o nosso Sacramento do Matrimónio. Há todo um caminho de aprofundamento nas ópticas metafísica, teológica e mística e não apenas segundo as perspectivas da sociologia, da psicologia e da ética. Ao viver mais profundamente o seu Sacramento, os casais animadores não deixarão de testemunhar com maior profundidade as razões da sua esperança fundada no Cristo Ressuscitado, vivo no mais fundo do nosso ser pessoa e no mais fundo do nosso ser casal. Cheios deste novo alimento, testemunharão ainda melhor as suas realidade humanas mas também as suas realidades cristãs, já que umas e outras fazem parte da proposta que a Igreja quer colocar nas mãos dos noivos prestes a constituir família. Na fidelidade ao que nos foi pedido, procurámos estruturar esta nossa apresentação em duas partes: - A Espiritualidade Conjugal segundo o Padre Caffarel - Uma Vida em Comunidade (segundo a nossa própria experiência) Passemos, então, à apresentação de algumas noções sobre Espiritualidade Conjugal, que nos chegam dos escritos e testemunho do Padre Caffarel.
I - A ESPIRITUALIDADE CONJUGAL SEGUNDO O PADRE CAFFAREL
Como baptizados em Cristo, somos todos chamados à santidade, leigos e consagrados. Mas, os caminhos para a santidade hão-de ser diferentes consoante o estado de vida de cada um. Os casados são pois também chamados, a dois, a caminhar para a santidade, e o caminho que lhes é próprio é o que designamos por Espiritualidade Conjugal. Esta é uma palavra suspeita. E comecemos por um texto muito curto, que retirámos do Livro do Padre Caffarel “Espiritualidade Conjugal”[3] publicado recentemente em português pela Editora Lucerna: «(quando se fala de espiritualidade) as reacções … são muito variadas. Nem todas são de interesse ou de simpatia. …Às vezes, ouve-se dizer: “Eu não sou místico. Já me chega ser bom cristão: estou demasiado ocupado com as minhas tarefas profissionais, familiares, sociais… para me ocupar ainda de espiritualidade!”. Outras vezes, é um verdadeiro escândalo: “Fugir assim do que é temporal, isso não é trair? Quando tantas aflições exigem a dedicação de todos, quando se prepara uma civilização nova que se construirá contra nós, se não se edificar connosco”. Outros, embora dando-lhe mais consideração, não vêem nela senão a ciência da oração e da virtude: nem lhes passaria pela cabeça que a espiritualidade possa ter alguma relação com as responsabilidades familiares, profissionais ou cívicas. Tanto uns como outros ignoram o que é exactamente a espiritualidade. Como dissipar os equívocos? É, sem dúvida, necessário precisar o que a palavra espiritualidade designa. A espiritualidade é a ciência que trata da vida cristã e dos caminhos que levam ao seu pleno desenvolvimento. Ora, a vida cristã integral não é só adoração, louvor, ascese, esforço de vida interior. É também serviço a Deus, no lugar destinado por Ele: família, profissão, Cidade… Os casais que se agrupam para se iniciarem à espiritualidade, longe de procurarem meios para fugir do mundo, esforçam-se por aprender como, a exemplo de Cristo, servir a Deus, em toda a sua vida e em pleno mundo.» Noutro texto, conta-nos o Padre Caffarel que as interrogações iniciais que se lhe colocaram: “Então, com muita vontade e tenacidade, tentámos aprofundar a doutrina do matrimónio, o pensamento da Igreja sobre todos os aspectos do matrimónio. Interrogamo-nos sobre a forma de viver cristãmente as realidades conjugais e familiares. E depois alargamos a nossa pergunta: «Como viver, no estado de casados, todas as exigências da vida cristã?» - creio que é o mais exacto. E principalmente pareceu-nos ser necessário, custasse o que custasse, elaborar uma espiritualidade para cristãos casados, porque era evidente que o ensinamento corrente da Igreja e dos padres, para os homens e as mulheres que queriam santificar-se, era uma espiritualidade elaborada por monges e religiosos.” Em 1987, o Padre Caffarel apresentava o seu testamento espiritual e resumia assim os fundamentos da Espiritualidade Conjugal: - O casamento é uma obra de Deus, a obra-prima de Deus. - O casamento tem uma alma, que é o amor. E esquecer o amor é condenar o matrimónio. - Os homens e as mulheres não podem ser fiéis ao amor sem o auxílio de Cristo. Por isso Ele inventou o sacramento do matrimónio. - Os cristãos casados, tal como os outros, como os monges, são chamados à santidade. Essa foi uma descoberta bastante original, porque ainda não tinha havido o Concílio, e foi aí que se insistiu muito sobre vocação dos leigos à santidade. - A vida conjugal comporta grandes riquezas e também grandes exigências. Importa explorá-las para as conhecer melhor. E o Pe. Caffarel acrescentava: - É necessário e indispensável elaborar uma espiritualidade do casal. Não pode ser a espiritualidade do celibatário ou do monge. Assim sendo, aprofundemos agora um pouco estas noções de espiritualidade conjugal através de um texto do Padre Caffarel, datado de 1958.
POR UMA ESPIRITUALIDADE DO CRISTÃO CASADO (L’ANNEAU D’OR 1958)
A “tentação da santidade” Proponho-me pois dar-vos uma introdução à “espiritualidade do cristão casado”. Mas, desde o início, reafirmemos que: não há várias santidades, há apenas uma perfeição cristã. São Tomás de Aquino definiu-a assim: «Todo o ser é perfeito desde que atinja a sua finalidade, que é a sua última perfeição; ora, a última finalidade da vida humana é Deus e é a caridade que nos une a Ele, segundo as palavras de S. João: “Aquele que permanece na caridade está em Deus e Deus nele.” É pois especialmente na caridade que consiste a perfeição da vida cristã.» Para o leigo, para o religioso, a santidade é a mesma, define-se do mesmo modo. Todo o cristão - e portanto também todo o cristão casado - é chamado à perfeição. No entanto, é necessário reconhecer que quando tomam consciência disso, os leigos entram por vezes em pânico diante desta perspectiva da santidade. Nada é tão impressionante como esta confissão de Jacques Rivière: «Meu Deus afasta de mim a tentação da santidade. Não é para mim. Contentai-vos com uma vida pura e paciente que eu farei todos os esforços para vos dar. Não me priveis das alegrias deliciosas que conheci, que tanto amei, que tanto aspiro a reencontrar. Não confundais. Eu não sou da espécie que precisas. Eu sou casado e pai, sou escritor. Não me tenteis com coisas impossíveis. Perderia o meu tempo nisso, - tempo que posso empregar de outra forma ao teu serviço!»
Necessidade de uma espiritualidade do cristão casado Portanto, uma só santidade à qual todos são chamados e da qual se deve dizer aos cristãos que são feitos para ela. Mas espiritualidades? Espiritualidades, ou seja, caminhos para atingir esta santidade? Que têm de específico, o que caracteriza estes diversos caminhos? Primeiro, como sugere o Padre Congar, o estado de vida. É bem evidente, a doutrina cristã, que é a mesma para todos, não pode ser vivida da mesma maneira por um monge, por uma religiosa que ensina, por um membro de um Instituto secular, por um homem ou uma mulher casados. Podemos desde já definir uma espiritualidade particular para cada um destes estados. O que especifica igualmente as espiritualidades, são as grandes orientações dadas pelos fundadores das diferentes Ordens: o louvor de um lado, a reparação de outro, ou ainda a tónica colocada na pobreza: aspectos diversos que apresentam, na Igreja, santos com fisionomias extraordinariamente variadas. Dois cristãos medíocres assemelham-se, enquanto que dois santos são sempre muito diferentes, embora habitados os dois por uma caridade heróica. Tipos de santidade variados, caminhos variados, tudo isso para realizar esta única santidade e oferecer à nossa admiração uma face múltipla de Cristo, que permanece contudo o mesmo: a única face de Cristo. Em que consiste a espiritualidade do cristão casado? Poder-se-ia dizer, dir-se-á talvez um dia, que há espiritualidades do cristão casado. De resto, actualmente não se vêm tipos de casais diferentes? Seria interessante e instrutivo possuir uma série de estudos sobre os casais ligando-se, pelas ordens terceiras ou outro vínculo, às grandes ordens religiosas. Mas deixemos isto, não é o nosso assunto. Tentemos apenas ver o que vale para todos os casais. Fim de citação.
Antes de mais, vejamos agora, em poucas palavras, o que não é a Espiritualidade Conjugal. Escreve o Pe. Caffarel:
A Espiritualidade Conjugal não é plágio Não é um plágio da espiritualidade monástica. […] Nem evasão: é um segundo erro a evitar: uma vida espiritual de evasão, de fuga, que não tem em conta as responsabilidades conjugais e sociais. […] Nem individualismo, terceiro erro. Os cônjuges, em muitos domínios, seguem uma unidade de visão e de acção que é habitual no plano do casal. Mas não fazem questão de comunicar no plano espiritual. Vive-se com Deus cada um por si. Cada um segue o seu pequeno caminho pessoal, afastado e abrigado do outro. Como um solteiro. Cada um diz: «eu», sem pensar no «nós» criado pelo Sacramento. […] Não é confusão Quarto erro - Uma vida espiritual que seria uma confusão. Ora não pode haver confusão já que cada um mantém a sua personalidade própria e a sua condição de Baptizado. Duas almas que se unem deveriam fazer mais que somar o seu potencial espiritual, elas deveriam multiplicá-lo.
E definindo a Espiritualidade Conjugal, agora, pela positiva:
Tentemos então descrever esta espiritualidade que os casais reclamam e da qual têm grande necessidade para salvaguardar a sua vida conjugal. - O matrimónio oferece aos esposos ajudas e comporta perigos próprios - A espiritualidade conjugal deve convidá-los a cristianizar toda a sua vida e a fazer resplandecer a Redenção do seu casal
AS AJUDAS DO MATRIMÓNIO
O cônjuge Que ajudas são propostas aos cristãos casados? Pois eles têm ajudas próprias, que são um bem para si – ajudas de ordem natural e de ordem sobrenatural. Primeiro, esta ajuda que deve ser a união conjugal, o facto de serem dois juntos, para caminharem juntos para esta palavra para a qual Deus os chama: santidade. Cada um deve encontrar no outro elementos que irão equilibrar, estabilizar e desabrochar a sua vida espiritual. […] O amor humano O amor é uma realidade muito grande, muito santa, que se enraíza no mais carnal do ser, mas que deve desabrochar no mais espiritual. Este amor humano de um homem e de uma mulher um pelo outro, ainda que se situe em zonas exteriores, é uma introdução a um amor todo interior. Nós somos feitos assim, o sensível desperta o espírito. A sexualidade é incitação a sair do egoísmo, orientação de um para o outro, de dois seres que se arriscavam a morar cada um na sua torre de marfim. Essa atracção carnal – bem vivida entenda-se – faz com que as pessoas se juntem e, pouco a pouco, acedam a um amor de um nível cada vez mais elevado, até esse amor completamente banhado no amor de Deus a que chamamos caridade conjugal. […] O matrimónio, símbolo das realidades divinas Uma outra ajuda oferecida pelo matrimónio, é precisamente o seu valor de símbolo do mundo divino e das realidades divinas. Os casais devem descobrir no seu amor humano: uma iniciação ao amor cristão, ao amor de Cristo. […] As ajudas sobrenaturais Mas se o matrimónio traz ajudas naturais já preciosas, é sobretudo uma realidade sobrenatural. O matrimónio cristão completo, em todas as suas realidades, é sobrenatural e sacramental. O matrimónio é um sacramento, quer dizer que o sacramento não é um título, não é algo que se acrescenta; é este dom, de um ao outro, do homem e da mulher, que é matrimónio, que é sacramento. Com efeito é o seu dom mútuo que é sacramento, e é toda a sua vida de dom mútuo que é esta fonte de graças. Se Cristo disse: «Quando dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles», por maioria de razão isto é verdade quando os que estão unidos, o estão por um sacramento. E por um sacramento que dura, e por um sacramento que é uma fonte de graças que nunca seca. Mas precisemos bem: Quando dizemos que o matrimónio é um sacramento, isto quer dizer que todas as realidades do casal são portadoras de graças para os esposos que o vivem segundo a vontade divina. É na e pelo contexto da vida conjugal que Cristo comunica a sua graça a cada um dos esposos. Como para os outros sacramentos, a acção de Cristo só é eficaz na medida em que o acolhemos. Por conseguinte, é necessário abrir-se a ela pela fé, pela humildade, pela cooperação que ela exige. Fé, humildade, espera também: os sacramentos operam na medida em que tenhamos fome dos dons que nos oferecem. E depois, cooperação, com certeza. Se não nos esforçamos a amar, se não trabalhamos para tornar a união mais profunda, se não desempenhamos as tarefas, a acção do sacramento fica como que travada. Mas se, pelo contrário, as desempenhamos verdadeiramente como convém, então o sacramento é realmente este dom maravilhoso de Deus aos cristãos casados que faz do seu casal uma célula da Igreja. […] OS PERIGOS DO MATRIMÓNIO
O matrimónio oferece pois ajudas inestimáveis para o caminho para a santidade, mas incontestavelmente comporta perigos, os mesmos dos quais se resguardam os religiosos pelos três votos: perigos dos bens materiais, pelo voto de pobreza; dos amores humanos, pelo voto de castidade; da fantasia e da independência, pelo voto de obediência. Os nossos cristão casados não têm estes três votos, e com razão! É que seria enganar-se estranhamente convidá-los a assemelharem-se o mais possível com os religiosos. Quem não o vê? Seria barrar-lhes o caminho para a santidade. Isso seria votá-los a um perpétuo complexo de inferioridade. Como poderiam assemelhar-se aos religiosos que pelos votos se despojam do dinheiro, da vida sexual, da independência, enquanto que a sua vida quotidiana, dos casados, os conduz sem cessar a estas realidades? Não é por conseguinte renunciando a estas realidades mas em se esforçarem por vivê-las cristãmente, que eles farão resplandecer a Redenção de Cristo neste triplo domínio. Mais precisamente, o uso cristão dos bens deste mundo oferece sérias dificuldades. Falemos um pouco delas. Os bens materiais […] A preocupação e a procura dos bens materiais suprimem muitas vezes a liberdade de tempo podendo este ser infinitamente precioso para uma vida mais humana e mais cristã. Exortar as pessoas casadas ao espírito de pobreza, que consiste em usar cristãmente os bens materiais – o que por vezes é mais difícil que despojar-se de todos os bens; ensiná-las também a passar à prática este espírito de pobreza, que não deve permanecer apenas espírito.
[…] O amor humano Uma segunda série de obstáculos pode ser encontrada no amor humano. Ao dizer amor humano, não falo apenas da vida carnal, mas também do amor espiritual dos cônjuges um pelo outro – e entendo espiritual, primeiro no sentido humano do termo. Esta ligação de dois seres um pelo outro, se não é corrigida sem cessar, curada, transfigurada pela caridade de Deus, é muitas vezes um verdadeiro obstáculo ao desabrochar da vida cristã. Menos liberdade de espírito, menos liberdade de coração, uma espécie de rede que se tece, que se fecha pouco a pouco…[…] tem-se de fazer um esforço muito grande, muitas vezes, para que o amor do cônjuge não relegue o amor de Deus para um segundo plano. […] A independência Terceiro perigo, algo de mais perigoso que os bens materiais: o espírito de independência, o espírito de insubmissão […] Estamos alarmados actualmente com esta “espiritualidade da insubmissão”, se podemos dizer, de muitos leigos: vontade própria, ideias pessoais, críticas acérrimas… Que podemos fazer? Convidá-los primeiro a uma submissão mútua. […] O amor é uma grande escola de dependência, com a condição que seja verdadeiro e justo. Submissão ao outro, submissão às exigências do casal. Duma certa maneira, não podem evitar esta submissão; mais ainda, eles devem aceitá-la como uma dependência amada e escolhida; então, não há nada mais benéfico, mais purificante como esta dependência de todos os dias, de manhã até à tarde, e de dia e de noite. E também submissão, abandono, à vontade de Deus. […] Falta de formação Entre os perigos, realçamos o mais grave: falta de formação para uma verdadeira vida cristã. Esta formação sobre a espiritualidade dos cristãos casados falta gravemente aos que enveredam pela via do matrimónio. Para esta formação não têm nem tempo, nem professores, nem escola! Embarcamo-los numa vida espantosamente difícil, sem os preparar para ela. Há aí algo de singularmente grave! A revista l’Anneau d’Or, pelo seu lado, estabeleceu como missão trazer aos noivos e aos casais esta espiritualidade do cristão casado. Com alguns casais pusemos de pé um Centro de Preparação para o Matrimónio, em Paris (16e), 17, rua Dufrénoy. As iniciativas multiplicam-se. Isso não impede que estejamos ainda longe do fim. Um dos grandes meios de formação são os retiros fechados de noivos e casais. […] Enfim, tanto para os casais como para os religiosos, é bem difícil viver a vida cristã se não a vivemos em comum. O exemplo que nos deram os primeiros cristãos deve ser seguido, […] as pequenas comunidades, a que eu chamaria um “ambiente de alimento sobrenatural” onde, precisamente, encontramos esta entreajuda que permite aos casais abrirem-se e desabrocharem para a graça de Cristo. […] CRISTIANIZAR TODA A SUA VIDA
Faltaria mostrar agora o rosto dos casais que se esforçam por viver segundo esta espiritualidade conjugal. Contentar-me-ei com umas breves ideias. Trata-se de cristianizar toda a vida familiar. E primeiro, de voltar a procurar o sentido cristão de todas as realidades familiares, e de se colocar a questão: «Basicamente, qual é o pensamento de Deus sobre o amor, sobre a paternidade e a maternidade, a sexualidade, a educação, sobre todas as grandes realidades do casal?» E não somente descobrir, mas ainda querer realizar a ideia de Deus sobre todos estes assuntos. Falta ainda voltar a procurar o que chamamos de bom grado um estilo cristão do casal: o estilo cristão das relações entre pessoas: entre os esposos, entre pais e filhos, entre pais e avós, entre o casal e os amigos; um estilo cristão da envolvente: da casa, do mobiliário, do vestuário, das refeições, das despesas; um estilo cristão das actividades quotidianas: o trabalho, o lazer, o levantar, o deitar, as insónias, a hospitalidade. Como fazer para que tudo isso seja cristão, pareça cristão, que tudo isso resplandeça da graça de Cristo? Um estilo cristão dos dias: o Domingo não se vive como o Sábado, o Sábado como a 6ª feira, a 6ª feira como os outros dias da semana; um estilo cristão dos grandes acontecimentos: o nascimento, a doença, as dificuldades, o matrimónio, a morte… Viver cristãmente estes acontecimentos. E tudo isso, «para que Deus seja glorificado em todas as coisas», como dizem os beneditinos. Por último, não estando o casal isolado na cidade e na Igreja, esta espiritualidade conjugal e familiar é também espiritualidade do empenhamento do casal nas tarefas humanas e nas tarefas da Igreja. Mas, actualmente – escreve o Pe. Caffarel em 1987 - é preciso partir de mais baixo. Formam-se agora muitos casais que não tiveram uma verdadeira catequese, ignoram muito da vida cristã e satisfazem muito mal as suas exigências. Conheço actualmente algumas pequenas comunidades onde o esforço é conseguir que todos os casais vão à missa de domingo. Esse problema não se poria há quarenta anos. É um facto. Trata-se de uma questão de prática religiosa, mas é sobretudo uma questão de formação religiosa… Para terminar vejamos mais dois textos notáveis do Padre Caffarel, publicados num número especial da revista l’anneau d’Or, atrás mencionada, com o título “Mistério do Amor”. São dois textos datados de 1945!
1. O Matrimónio é um Sacramento Quando falamos de casamento falamos normalmente mais de moralidade do que de espiritualidade. A vocação do amor é uma relação do homem com Deus, a fonte do amor. Esta relação do homem com Deus é um “mistério”. O amor é um mistério. Para ser revelado não basta uma análise humana, racional. É necessário ir mais longe, chegar próximo de Deus, pois só Deus, que é amor, sabe falar do amor. Falar do amor como relação do homem com Deus é o mesmo que dizer que o Matrimónio é um Sacramento, ou seja, um sinal visível do envolvimento de Deus com o casal cristão. O amor conjugal é imagem do amor de Deus Trinitário. O casal cristão está unido pelo Sacramento do Matrimónio e esta condição de casado dá-lhe o direito às Graças próprias do seu estado. Quais são essas graças? É um bom tema para aprofundamento. Curar o amor. Sim, porque o amor muitas vezes precisa de ser curado do egoísmo, do amor próprio, da tentação do poder e do controle sobre o outro,… Transfigurar o amor. Aprendemos não apenas a manter o amor mas a nos ultrapassarmos no amor. É a renúncia total a nós mesmos, e a dedicação total ao outro. Não é uma graça fácil e confortável. Mas quem já passou por crises e se ultrapassou sabe bem o bem que sabe chegar de novo a bom porto e sentir que ama verdadeiramente. Tornar o amor fecundo. Não se trata apenas de procriar, trata-se de educar os filhos para Deus. Mas, o primeiro acto de uma espiritualidade conjugal é acreditar que Cristo está ao nosso lado. O Sacramento não será vivo, efectivo, sem os esposos quererem. Eles têm de acreditar para poderem receber as forças que contém. Sempre que Cristo fazia um milagre, não perguntava: “Tu crês? …vai, a tua fé te salvou” ? No Matrimónio, em que consiste esta fé? Cooperação: as graças do matrimónio seriam estéreis sem a cooperação dos esposos. Ou seja, as graças não são actos de magia. Envolvimento: Mas não basta a cooperação apenas como resposta momentânea a cada Graça. É necessário ter consciência que é todo o nosso ser, todo o novo ser conjugal que se compromete com Cristo, toda a nossa vida. Consagração: Para a dimensão sacramental do Matrimónio não chega a cooperação e o envolvimento, é necessária a consagração do casal a Cristo, sem condições, em atitude de louvor (Já não sou eu quem vive, …). Ora: Quando dizemos que o Matrimónio é uma oferta de Cristo ao casal e uma oferta do casal a Cristo, fica satisfeito o equilíbrio, mas não fica tudo dito. Falta entrar no sentido sagrado do mistério do amor, o mistério do Matrimónio. O Matrimónio evoca a união de Cristo à Sua Igreja. É bom contemplar o Sacramento do Matrimónio através desta imagem do amor de Cristo pela sua Igreja. Mas bastará contemplá-lo simplesmente? O Matrimónio cristão não é apenas uma imagem do amor de Cristo. Ele não está apenas destinado a melhor compreendermos esse amor, mas a vivê-lo melhor. É que quando um marido ama a sua mulher “Como Cristo ama a sua Igreja”, quando uma mulher ama o seu marido “com a veneração do amor da Igreja por Cristo”, eles unem-se no próprio amor de Cristo e da Igreja. Na sequência do que acabámos de escutar do Pe. Caffarel, como seria diferente o panorama actual dos casais cristão se todos tivessem partido para a sua vida a dois com estas noções de Espiritualidade Conjugal bem enraizadas no seu coração! Passemos então à segunda e última parte desta nossa apresentação: “Uma Vida em Comunidade”.
II - UMA VIDA EM COMUNIDADE (segundo a nossa própria experiência) Para que os noivos que frequentam o CPM possam assimilar as noções de Espiritualidade Conjugal que lhes faltam, é fundamental começar pelas equipas formadoras, assegurando que são constituídas por casais com uma consolidada formação de base e uma sólida formação humana, casais que vivem e testemunham a sua Espiritualidade de Cristãos casados. Assim constituídas, estas equipas poderão ser também elas verdadeiras comunidades evangelizadas, onde o testemunho é verdadeiro e a entreajuda uma realidade, onde se aprofunda a fé, e se tornam por si só e pelo testemunho que oferecem, comunidades evangelizadoras. Nos CPM, as equipas formadoras, ao longo dos vários temas, terão como preocupação de fundo ser evangelizadoras, privilegiando a todo o momento o pensamento cristão sobre todas as questões da vida, não deixando de testemunhar as exigências do evangelho e o confronto deste com a vida do dia a dia. As equipas formadoras do CPM, serão pois comunidades evangelizadas e evangelizadoras, que dão testemunho e “estão sempre prontas a dar as razões da sua esperança”. Estas pequenas comunidades são o rosto da Igreja que se abre aos outros e que acolhe as interpelações do “tempo novo” através da leitura dos sinais dos tempos que lhes chegam nos noivos que acolhem. Muitos destes noivos precisarão de um primeiro anúncio, de uma apresentação dos elementos essenciais da fé. Precisam de perceber que são, individualmente e enquanto casal, chamados à santidade, e que este caminho para a santidade só se realiza com a atenção e o cuidado que cada um tiver com o outro, e com os outros, ao longo da sua vida. Os noivos sairão assim do CPM com uma noção mais clara do que lhes é pedido no caminho que querem percorrer a dois. Verão pelo testemunho que não é com facilitismos mas antes com exigência que se constroem casais e famílias fortes. O exemplo dos casais formadores inseridos numa pequena comunidade será uma motivação para o novo casal também se querer inserir, ele próprio, numa comunidade de vida e partilha onde possa experimentar em si mesmo tudo o que foi recebendo da equipa formadora. Em rigor, tudo o que se transmite no decorrer do CPM é muito e muito profundo para tão pouco tempo. Inseridos em comunidades os novos casais terão todo um novo enquadramento onde estas noções e a vivência de uma verdadeira Espiritualidade Conjugal se vai desenvolvendo e reforçando, reforçando assim também a sua fé, enraizando a sua esperança e suscitando a sua caridade e disponibilidade, ao serviço do outro e dos outros. E porque reconhecemos que é muita coisa para as sessões do CPM, ocorre-nos perguntar: Será que o CPM não devia ser o culminar de um caminho catecumenal para o matrimónio? Será, porventura, nessa linha que se irá orientar o anunciado Vademecum para a preparação para o matrimónio, a ser preparado pelo Conselho Pontifício para a Família, de modo a que – nas palavras de Bento XVI – “a vocação dos esposos se torne um tesouro para toda a comunidade cristã e, especialmente no contexto actual, um testemunho missionário e profético”[4] ? CONCLUSÃO Quando em 1981, há quase trinta anos aqui o Padre Janela nos convidou para entrar numa Equipa de Casais, não sonhávamos o impacto que tal convite iria ter na vida de cada um de nós e na nossa vida a dois. Felizmente aceitámos o convite e não deixamos de agradecer ao Senhor por nos ter enviado este seu emissário. Hoje, com três filhos, a mais velha casada e os outros dois adultos e autónomos, já com uma neta e esperando os outros netos que Ele nos quiser dar, olhamos para esta nova fase da vida que se inicia, com a certeza de nos sabermos abertos aos outros e, como sempre, disponíveis para o Seu serviço. A procura de Deus e da Sua vontade, feita em casal e em comunidade, ajuda-nos tornamo-nos mais conscientes da nossa missão no Mundo, desafiando-nos a ir sempre mais longe. O testemunho – ainda que frágil - desta maneira de viver pode ser, para os noivos, uma maneira de encontrar, ou reencontrar, o amor de Deus; É necessário que os casais animadores saibam “dar as razões da sua Fé” mas, sobretudo, que no seu trabalho e abordagem aos noivos seja visível a face de Jesus Cristo; e, Se conhecemos o que a Igreja nos pede, se nos preparamos com toda a verdade e se as sessões com os noivos forem preparadas com amor, mas também, com exigência, poderemos ajudar os jovens na sua aproximação a Jesus Cristo, contribuindo de forma decisiva para a Nova Evangelização e para o crescimento das famílias cristãs. 10 de Abril de 2010 [1] Henri Caffarel (1903-1996), em quem o cardeal Lustiger viu «um profeta do século XX», sentiu-se cativado por Deus desde a juventude e disse «sim» ao apelo divino. A sua vida tomou rumo em Março de 1923, quando «encontrou» Cristo: seria padre para levar os homens e as mulheres do seu tempo a sentirem a experiência de Deus tal como ele a sentia. Foi ordenado padre em 1930. Exerceu o seu ministério sacerdotal junto dos jovens da Jeunesse Ouvrière Chrétienne e, depois, dos casais (1935), para quem e com quem fundou a revista de espiritualidade conjugal e familiar l'Anneau d'Or (1945) e as Equipas de Nossa Senhora (1947). Desde 1944 acompanhou noivos preparando-os para o Matrimónio tendo sido o primeiro director dos Cursos de Preparação para o Matrimónio que se lançaram como serviço em 1956 através do casal Jean e a Jacqueline Pillias e do Padre Alphonse d´Heilly, nomeados pelo Pe. Caffarel (cf. Allemand, Jean Henri Caffarel, Um Homem Cativado por Deus, Editora Lucerna, 2007). Em 1960, tendo sido nomeado consultor para o Concílio Vaticano II, redigiu para a Comissão para o Apostolado dos Leigos várias comunicações sobre o matrimónio cristão e a missão apostólica do casal e da família. Em 1965, fundou a casa de oração de Troussures, a norte de Paris, onde, durante 30 anos, animou semanas de oração abertas a todos que constituíram oportunidades de formação para a oração e a meditação. Faleceu em 1996 e a abertura do seu processo de canonização foi anunciada oficialmente em Lourdes, em 2006.
[2] (cf. Allemand, Jean Henri Caffarel, Um Homem Cativado por Deus, Editora Lucerna, 2007, p.101)
[3] Os artigos escolhidos para este livro, publicado recentemente em português pela Editora Lucerna, foram primeiramente editados numa revista notável sobre Espiritualidade Conjugal: “l’Anneau d’Or”. Estes artigos dão uma perspectiva alargada da espiritualidade conjugal e constituem uma excelente base de partida para uma vida nova, a dois. Eis alguns destes temas: “Vocação do amor”; “Por uma espiritualidade do cristão casado”; “Simbolismo do matrimónio”; “Uma casa de oração”; “O casal apóstolo”; “Cinco párocos interrogam-se”.
[4] Discurso aos consultores do Conselho Pontifício para a Família, na sua 19ª Assembleia Plenária (8/02/2010).
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